Descobrindo o Mistério dos Sacrifícios Humanos entre os Celtas
Recentemente, um grupo de arqueólogos fez uma descoberta surpreendente em um sítio celta antigo em Dorset, Inglaterra. Eles encontraram um esqueleto de aproximadamente 2.000 anos, enterrado de uma maneira bastante peculiar: de bruços em uma cova, com as mãos provavelmente amarradas e sem nenhum objeto grave. Essa posição inusitada levanta questões sobre as práticas funerárias e rituais da época.
Os pesquisadores têm a hipótese de que esse esqueleto pertença a uma jovem do sexo feminino, com idade entre 15 e 17 anos. Essa suposição se baseia em achados semelhantes em escavações anteriores na região. Em 2024, uma sepultura de uma adolescente e, em 2010, outra feminina foram descobertas, todas com características que indicam que poderiam ter sido vítimas de sacrifícios humanos.
Essas descobertas fazem parte de um projeto arqueológico que busca entender melhor a história da tribo celta Durotriges. Os sepultamentos revelam novos detalhes sobre a vida pré-romana na Inglaterra, e um estudo anterior, publicado em janeiro de 2025, analisou evidências que sugerem que essas comunidades eram matrilocais. Isso significa que, quando um homem se casava, ele se mudava para a casa da esposa e se integrava à sua família.
A Estrutura Matrilinear das Tribos Celtas
Quando os romanos chegaram à Grã-Bretanha há 2.000 anos, muitos se surpreenderam ao perceber que as tribos celtas eram organizadas de maneira diferente das sociedades patriarcais romanas. As mulheres ocupavam um lugar significativo nas comunidades celtas, conforme se pode observar pelos objetos encontrados em seus túmulos.
As sepulturas de mulheres celtas frequentemente continham “bens funerários substanciais”, indicando seu alto status. Entretanto, esses indícios por si só não comprovam que a sociedade era completamente matrilocal. Para investigar isso, os pesquisadores analisaram 57 genomas antigos encontrados nas sepulturas dos Durotriges.
Os estudos mostraram que havia um grupo de parentesco ampliado, centrado em uma linhagem materna. No sul da Inglaterra, pouco mais de dois terços dos indivíduos relacionados apresentavam um mesmo grupo mitocondrial raro, sugerindo que a comunidade era estruturada ao redor da linha feminina. Por outro lado, a diversidade do cromossomo Y, ligado aos homens, era alta, indicando que os homens se mudavam para viver nas comunidades de suas esposas.
Estes achados concordam com relatos romanos sobre os celtas. Um historiador romano escreveu que entre os celtas as atividades de homens e mulheres eram “trocadas”, de forma oposta ao que se via em Roma. Embora essas observações tenham sido consideradas exageradas por alguns historiadores contemporâneos, as evidências genéticas e arqueológicas recentes reforçam suas afirmações.
Sacrifícios Femininos na Sociedade Celta
Apesar da importância das mulheres na sociedade celta, a realidade era mais complexa. Nem todas as mulheres recebiam o mesmo tratamento; havia uma hierarquia social que deixava algumas em situações desfavoráveis, especialmente aquelas que não eram da região ou não pertenciam às famílias dominantes.
Até agora, três sepulturas de jovens mulheres celtas foram identificadas e estudadas. A primeira, descoberta em 2010, passou por uma análise completa, enquanto a segunda, uma adolescente localizada em 2024, e a terceira, também de uma jovem, ainda precisam de investigações mais profundas.
Uma característica comum entre essas sepulturas é a ausência de bens funerários que, normalmente, indicariam status social elevado. Além disso, a posição dos corpos, de bruços, levanta supostas questões sobre a sua importância e tratamento na cultura celta.
A sepultura mais recente, que chamou a atenção dos arqueólogos, presentava indícios de que o corpo havia sido jogado em um buraco, com as mãos potencialmente amarradas. Isso sugere que essas jovens eram consideradas de baixo status e “descartáveis”. Contudo, as razões por trás desses sacrifícios ainda não estão claras. Pesquisadores continuam sem saber quais fatores sociais, políticos ou ambientais poderiam ter levado a tais práticas.
O que se sabe é que a ocorrência de múltiplos sacrifícios indica que essa prática não era tão rara. Estudos de DNA estão em andamento para obter mais informações sobre essas jovens, como traumas, doenças e aspectos de suas dietas. Essas análises poderão oferecer um entendimento mais profundo sobre as circunstâncias que envolveram suas mortes há cerca de 2.000 anos.
Os próximos passos incluem a investigação das duas sepulturas recentes, visando encontrar mais evidências sobre a vida e a sociedade celtas. Espera-se que novas descobertas ajudem a esclarecer o contexto social que permitiu que tais sacrifícios ocorressem, revelando mais sobre a complexidade da vida das mulheres celtas na antiguidade.
Conclusão
Essas descobertas arqueológicas sobre os sacrifícios e a organização social entre os celtas nos ajudam a entender melhor como era a vida na Grã-Bretanha antes da influência romana. Embora as mulheres tivessem um papel significativo na sociedade, nem todas tinham os mesmos privilégios. A análise das sepulturas e dos costumes celtas ilumina não apenas as tradições e rituais, mas também as desigualdades que coexistiam dentro dessas comunidades.
O estudo da linhagem materna e a observação das práticas funerárias oferecem um vislumbre fascinante do passado, ressaltando a importância da pesquisa contínua sobre os celtas. À medida que mais informações vêm à tona, somos levados a questionar o que sabemos sobre sociedades antigas e suas dinâmicas sociais, convidando-nos a apreciar a complexidade de suas culturas.