05/02/2026
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Douglas Kelley, o psiquiatra que pesquisou nazistas em Nuremberg

Douglas Kelley foi um psiquiatra americano que, meses antes dos julgamentos de Nuremberg, entrevistou líderes nazistas para entender suas motivações para o Holocausto. Essa tarefa impactou profundamente sua vida e, em 1958, culminou em seu suicídio.

### A Vida de Douglas Kelley Antes de Nuremberg

Douglas Kelley nasceu na Califórnia em 1912. Desde cedo, se destacou nos estudos, completando seu curso de medicina na Universidade da Califórnia e se especializando em psiquiatria e neurologia. Na casa dos 30 anos, já era reconhecido na psiquiatria americana, publicando pesquisas sobre a química do cérebro e as bases fisiológicas das doenças mentais.

Quando o Exército dos EUA buscou especialistas para os julgamentos de Nuremberg, Kelley foi convidado. Ele tinha uma abordagem científica e curiosa, livre de preconceitos que pudessem prejudicar seu julgamento. As perguntas que buscavam respostas eram essenciais: esses líderes nazistas eram insanos? Que tipo de mente poderia orquestrar o Holocausto? A psiquiatria poderia explicar o Terceiro Reich?

Chegando a Nuremberg no outono de 1945, poucos meses após a derrota da Alemanha, Kelley encontrou um ambiente sombrio. A prisão que abrigava os oficiais nazistas era um prédio de pedra ao lado do Palácio da Justiça, onde ocorreriam os julgamentos. Ali estavam Hermann Göring, Rudolf Hess, Joachim von Ribbentrop, Julius Streicher e outros líderes esperando por seu julgamento.

### Explorando as Mentes dos Monstros

A abordagem de Kelley era metódica e, para a época, bastante humana. Ele conduziu extensas entrevistas com cada prisioneiro, aplicou testes psicológicos como o Rorschach e o Thematic Apperception Test, e observou cuidadosamente o comportamento deles. Queria entender quem eles realmente eram e não apenas as atrocidades que cometeram.

Kelley percebeu rapidamente que os líderes nazistas não eram os lunáticos que ele imaginava encontrar. Em suas anotações, ele mencionou Robert Ley, um importante membro do partido, que, apesar de se opor ao anti-semitismo, acreditava que os judeus eram um problema a ser resolvido. Ley afirmou que, em vez de matar os judeus, ele usaria outras formas de forçá-los a deixar a Alemanha.

Kelley notou que Ley se mostrava agitado e se sentia injustiçado ao ser chamado de criminoso. Ele repetia que não tinha matado ninguém e que seus esforços eram em prol do povo alemão. Essa lógica, apesar de errada, não revelava sinais de insanidade.

Hess, por outro lado, aduou ter amnésia e apresentava uma aparência perturbada, embora isso parecesse mais uma encenação do que um estado psicótico real. Streicher, grosso e repulsivo, também não demonstrou loucura clínica. Até mesmo Hans Frank, responsável por muitos crimes na Polônia, falava eloquentemente sobre arte e cultura.

O resultado dessas interações para Kelley foi claro: esses homens, por mais que tivessem cometido atrocidades, estavam mentalmente sãos.

### A Relação Complicada com Hermann Göring

Kelley desenvolveu um relacionamento complexo com Hermann Göring, o mais alto oficial nazista em julgamento. Os dois passaram horas conversando sobre história e política. Göring era carismático, manipulador e se destacou em testes de inteligência, sem sinais aparentes de problemas mentais.

Ele também mencionava frequentemente que queria ser lembrado como um grande homem na história da Alemanha e estava ciente de seu destino. Göring declarou a Kelley que estava preparado para a execução, mas desejava deixar um legado positivo para o povo alemão.

Quando Kelley anunciou sua saída da prisão, Göring expressou seu pesar e agradeceu pelo tratamento humano. Essa relação deixou Kelley em um dilema moral. Ele se via como médico ou como informante, questionando sua lealdade e ética em meio a conversas tão controversas.

### Conclusões Polêmicas de Nuremberg

Em 1946, Kelley publicou suas conclusões, afirmando que os líderes nazistas representavam um tipo de personalidade autoritária e nacionalista, e não patológica. Ele alertou que a capacidade deles para o mal poderia ser reproduzida em qualquer lugar do mundo.

Essa ideia incomodou muitos, pois sugeria que pessoas consideradas normais poderiam cometer genocídios sob certas circunstâncias. Se Göring e seus colegas eram saudáveis mentalmente, a linha entre “nós” e “eles” se tornava quase invisível. O mal não estava apenas nas mentes dos loucos, mas poderia emergir da natureza humana.

O trabalho de Kelley gerou controvérsias. Alguns colegas acreditavam que ele havia sido manipulado pelos próprios nazistas. Outros o criticaram por parecer muito simpático a seus entrevistados, especialmente Göring.

### O Impacto Emocional e a Morte de Douglas Kelley

Após os julgamentos, Kelley voltou para os Estados Unidos e tentou retomar sua carreira. Ele lecionou na Universidade da Califórnia, escreveu sobre suas experiências em Nuremberg e continuou suas pesquisas. Contudo, algo dentro dele havia mudado.

Colegas notaram que ele se tornara inquieto e sombrio, como se as experiências vividas em Nuremberg não o deixassem em paz. O interesse dele se voltou para criminologia e a natureza do mal, enquanto lutava para deixar tudo o que viu para trás. Ele se tornou curioso sobre venenos, especialmente cianeto, o mesmo usado por Göring para evitar a execução.

Ninguém esperava que Kelley optasse pelo mesmo destino. Nos últimos anos, o psiquiatra sofreu um estresse intenso e o peso psicológico de suas experiências era evidente. Passou a beber em excesso e demonstrar explosões de raiva, tendo até ameaçado tirar a própria vida em outras ocasiões.

Em 1º de janeiro de 1958, durante um episódio de raiva após se queimar na cozinha, Kelley afirmou que ingeriaria cianeto. E foi exatamente isso que fez. Em frente à sua família, ele consumiu a substância e faleceu, aos 45 anos. Sua família ficou sem respostas sobre sua decisão.

Seu filho refletiu que talvez Kelley soubesse o que havia dentro dele, mas não soubesse como lidar com isso.

### Reflexões Finais

A história de Douglas Kelley é uma mistura de curiosidade científica, dilemas éticos e a luta interna de um homem que enfrentou o lado mais sombrio da natureza humana. Seus encontros com os líderes nazistas mudaram sua vida para sempre, mostrando que o mal não estava apenas nas figuras demonizadas, mas muitas vezes em suas próprias sombras.

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