Resumo
Uma pesquisa internacional com 858 pessoas que receberam terapia eletroconvulsiva (ECT) mostrou que as mulheres têm o dobro de chances de receber o tratamento em comparação com os homens e enfrentam mais efeitos colaterais. As mulheres relataram uma maior perda de memória, sentimentos de coerção e consequências emocionais negativas, muitas vezes descrevendo o tratamento como algo que a traumatiza mais.
Elas também mostraram menos disposição para afirmar que tiveram melhora no humor ou para se submeter ao tratamento novamente. Esses achados destacam diferenças de gênero nos cuidados psiquiátricos e pedem uma reavaliação da ECT considerando o trauma.
Fatos Principais
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Maior Risco para Mulheres: Mulheres recebem a ECT com o dobro da frequência que homens e reportam resultados piores, incluindo perda de memória a longo prazo.
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Menor Benefício Relatado: Apenas 15% das mulheres escolheriam ECT novamente, em comparação com 29% dos homens.
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Trauma e Coerção: Mulheres relatam mais pressão para consentir, menos informações sobre riscos e experiências que lembram traumas passados.
Contexto da Pesquisa
Esta pesquisa internacional revelou que as mulheres são duas vezes mais propensas a receber ECT do que os homens e têm mais chances de sofrer perdas de memória a longo prazo e outros efeitos negativos como consequência do tratamento.
O estudo, intitulado “Terapia Eletroconvulsiva e Mulheres: Uma Pesquisa Internacional”, foi realizado por um professor da Universidade de East London, e reuniu respostas de 858 pacientes de ECT em 44 países, 73% dos quais eram mulheres. Este é o maior levantamento do tipo.
Embora a ECT seja administrada a aproximadamente um milhão de pessoas todos os anos, a pesquisa mostrou que as mulheres têm resultados piores em quase todos os aspectos. Elas são menos propensas a relatar melhora no humor e mais propensas a descrever o tratamento como prejudicial, com uma taxa de perda de memória, tanto a curto quanto a longo prazo, significativamente maior. Apenas 15% das mulheres afirmaram que fariam ECT novamente, em comparação com 29% dos homens.
As mulheres também relataram receber menos informações antes do tratamento, enfrentando uma pressão maior para consentir, além de receberem ECT de psiquiatras predominantemente masculinos – 81% no mundo todo e 88% nos EUA.
Experiências Relatadas
Além das estatísticas, muitas mulheres descreveram suas experiências como traumáticas, sentindo-se violadas ou com a sensação de perda de controle. Algumas narrativas incluíam serem imobilizadas durante o procedimento, o que reabriu memórias de abusos passados, e gerou um medo duradouro de tratamentos futuros. Para algumas sobreviventes de violência sexual, ECT era vista como “um outro tipo de estupro – mas da mente”.
O professor responsável pelo estudo destacou que os achados indicam que as mulheres não apenas recebem ECT com mais frequência, mas também são mais suscetíveis a sofrer seus efeitos mais prejudiciais. Esses padrões não podem ser considerados coincidências. Eles refletem preconceitos sistêmicos na psiquiatria e sublinham a necessidade urgente de uma abordagem que considere o trauma e uma perspectiva feminista nos cuidados de saúde mental.
Relatos de Pesquisadores
Alguns membros da equipe de pesquisa já passaram por ECT e compartilharam suas experiências.
Lisa Morrison, autora principal (Belfast, Irlanda do Norte):
“Minhas experiências de abuso foram tratadas principalmente com medicamentos psiquiátricos e ECT. As internações repetidas me deixaram cada vez mais doente. As muitas diagnósticos que recebi reforçaram as mensagens devastadoras que tantas mulheres internalizam. Eu sou a culpada. Eu sou ruim. Essa é a minha vergonha. Não há como dar consentimento informado sem conhecer os riscos. Apesar de toda a evidência contrária, eles ainda dizem que é seguro e eficaz.”
Sue Cunliffe, coautora (Worcester, Inglaterra):
“Eu sou uma sobrevivente da mádiagnóstico e do tratamento inadequado de vítimas de abuso doméstico. Os psiquiatras em quem confiei para me ajudar me envergonharam, me culparam, me deixaram com danos cerebrais e quase me fizeram querer morrer. Nenhuma quantidade de ‘medicação feliz’ ou ECT iria mudar a realidade do que eu estava vivendo.”
Sarah Hancock, coautora (San Diego, EUA):
“Essa pesquisa mostra que minha experiência não era tão rara como os médicos, conselheiros e profissionais de saúde mental me faziam acreditar. É muito desorientador não ter referência para interações diárias com familiares e amigos. Memórias compartilhadas são a base das relações e da identidade. Sem elas, sinto como se fosse um barco sem âncora.”
Dr. Lucy Johnstone (psicóloga clínica, Bristol, Inglaterra):
“Atendi diversas mulheres que receberam ECT para questões ligadas a abusos. Isso não é tratamento; é re-traumatização, e isso precisa acabar.”
Chamado à Ação
Os achados da pesquisa devem levar a uma avaliação urgente do uso da ECT. Professor Read ressalta que informações sobre as diferenças de gênero em riscos e resultados devem ser dadas rotineiramente às mulheres e suas famílias. A ECT não deve ser a primeira resposta ao sofrimento das mulheres.
Perguntas Frequentes
Por que as mulheres recebem ECT com mais frequência do que os homens?
Dados da pesquisa mostram que as mulheres têm o dobro da probabilidade de receber ECT, refletindo preconceitos arraigados na prática psiquiátrica e nos padrões diagnósticos.
Quais efeitos negativos as mulheres relatam após receber ECT?
As mulheres reportam taxas significativamente mais altas de perda de memória a longo prazo, problemas de memória de curto prazo, respostas traumáticas e danos gerais.
A ECT beneficia as mulheres tanto quanto os homens?
Não. As mulheres são menos propensas a relatar melhora no humor após ECT e muito menos propensas a querer o tratamento novamente.
Esta pesquisa traz à luz a necessidade de reconsiderar o tratamento e as práticas em saúde mental, visando melhorar a vida das mulheres que enfrentam desafios emocionais.