21/03/2026
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Estresse térmico e saúde mental: impacto do calor no Ceará

A crise climática está trazendo sérias consequências, especialmente aos habitantes do Ceará, onde o calor intenso se tornou uma realidade constante. O aumento das temperaturas, registrado em 1,8ºC nos últimos 60 anos, segundo um estudo da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), gera uma série de problemas à saúde, incluindo questões de saúde mental, como estresse térmico e ecoansiedade.

Estresse térmico e suas consequências

O estresse térmico ocorre quando o corpo humano enfrenta dificuldades para se resfriar em temperaturas elevadas, interrompendo seu funcionamento ideal de 36,5°C. Essa condição é especialmente preocupante em um cenário de mudanças climáticas acentuadas, onde as ondas de calor se tornaram mais frequentes. Isso pode levar a sintomas como fadiga, distúrbios do sono e aumento do estresse.

A pesquisadora Érica Pontes, professora no Mestrado em Climatologia da UFC, explica que o contexto atual chama atenção para a relação entre as mudanças climáticas e os efeitos na saúde da população. O fenômeno, denominado “Capitaloceno”, destaca o papel da humanidade na transformação negativa do meio ambiente, que, combinado com a emissão de gases do efeito estufa, tem contribuído para o aumento da temperatura global.

Cerca de 38 milhões de pessoas no país estão expostas ao estresse térmico, conforme estudos que analisaram o fenômeno na América do Sul. Muitas dessas pessoas vivem em cidades onde as condições de calor extremo afetam diretamente suas vidas diárias. O estudo revelou que em algumas cidades brasileiras, podem ocorrer mais de 20 dias de calor extremo por ano.

Ecoansiedade: um novo desafio psicológico

Além do estresse térmico, as mudanças climáticas também têm gerado um fenômeno emocional chamado ecoansiedade. Essa condição é caracterizada pela preocupação intensa com o futuro do planeta e as incertezas relacionadas às mudanças ambientais. Alessandra Xavier, psicóloga da Universidade Estadual do Ceará, destaca que essas preocupações podem provocar insônia e estresse, refletindo o impacto das notícias sobre desastres ambientais e a consciência das perdas que podemos enfrentar, tanto individualmente quanto coletivamente.

Esse fenômeno afeta principalmente as populações vulneráveis, como pessoas de baixa renda e grupos minoritários, amplificando as desigualdades sociais. A compreensão das desigualdades climáticas foi um dos principais temas abordados na recente Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, destacando que os impactos das mudanças climáticas não afetam todos de maneira igual. Especificamente, os mais afetados são aqueles que não possuem moradias adequadas e enfrentam condições difíceis no dia a dia.

Vulnerabilidade social e suas consequências

As desigualdades também se refletem no atendimento médico durante períodos de calor. Muitas vezes, os atendimentos relacionados a desidratação e outros problemas de saúde afetam trabalhadores que passam longas horas ao ar livre. Com a falta de infraestrutura para enfrentar o calor, os trabalhadores enfrentam uma carga adicional de estresse térmico.

Medidas de adaptação, como roupas leves e hidratação, nem sempre são viáveis para todos. Helaine Sousa, estudante da UFC, relata as dificuldades enfrentadas em sua rotina, como o uso de fardas escuras e a impossibilidade de evitar os horários mais quentes para se deslocar.

Iniciativas e soluções no Ceará

O Ceará, situado numa das áreas mais quentes do Brasil, já está adotando algumas estratégias para lidar com o calor. Recentemente, Fortaleza implementou um plano de gestão para combater as ilhas de calor e o estresse térmico. No entanto, essas iniciativas ainda são insuficientes e muitas vezes negligenciadas.

Além de garantir moradia digna nas áreas periféricas, é crucial investir na preservação de áreas verdes urbanas. Espaços como o Parque Estadual do Cocó têm um papel fundamental, oferecendo zonas de frescor que ajudam a amenizar o calor nas áreas adjacentes. Pesquisas indicam que a vegetação pode reduzir a temperatura em até 6°C em comparação com áreas sem árvores.

A conversa sobre as mudanças climáticas e suas soluções continua a ganhar destaque em eventos internacionais, como a COP em Belém, onde se discute a importância da preservação ambiental e a justiça climática.

Conclusão

Diante da crise climática, o Ceará e suas populações vulneráveis enfrentam desafios significativos. A promoção da justiça climática e ações eficazes para mitigar os impactos são essenciais para garantir um futuro mais seguro e saudável para todos.

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