Mais de um ano após as severas enchentes que impactaram o Rio Grande do Sul, ainda é difícil falar em superação. As inundações atingiram 478 municípios, afetando mais de 2,3 milhões de pessoas, e as consequências vão além da destruição física, deixando marcas emocionais profundas. A água levou não apenas casas, mas também memórias e alterou a geografia da região. O trauma vivido pela população persiste e a reconstrução não deve ser vista como um simples avanço, como se nada tivesse acontecido.
Eventos climáticos severos provocam consequências duradouras na saúde das pessoas. De acordo com estudos, a taxa de mortes relacionadas ao calor tem aumentado desde os anos 1990. No contexto brasileiro, situações de desastres, como as de Mariana e Brumadinho, demonstraram que problemas como ansiedade, insônia, estresse e lapsos de memória podem durar anos. Recentemente, um tornado no Paraná causou destruição em uma cidade inteira, resultando em mortes e feridos, mostrando que os impactos desses eventos podem ser devastadores. A realidade no Rio Grande do Sul é semelhante: o que foi vivido não chegou ao fim, mas passou para uma nova fase.
Durante as crises, surgiram atitudes de coragem e solidariedade que ajudaram muitas pessoas. Redes de apoio foram criadas, com famílias que perderam tudo compartilhando o pouco que ainda tinham. Profissionais trabalharam arduamente para ajudar os afetados. Embora essa mobilização solidária seja inspiradora, não deve ser romantizada como uma prova de resistência do povo gaúcho, e não substitui a necessidade de políticas que ofereçam suporte estrutural.
A noção de resiliência não deve ser um convite ao silêncio. A população precisa de apoio para se reconstruir, principalmente crianças, idosos e aqueles que sofreram perdas significativas. Essas pessoas se situam entre os grupos mais vulneráveis e necessitam de acompanhamento especializado, o que se configura como uma questão de saúde pública.
Cuidar das pessoas afetadas tem se mostrado eficaz. Instituições, como o Instituto Moinhos Social, estão mobilizando equipes profissionais para oferecer atendimento em saúde, suporte psicológico e assistência a famílias em situação de vulnerabilidade. Além de distribuir kits de higiene, a atuação desse tipo de organização continua após a emergência, garantindo um suporte prolongado.
Para reconstruir o Estado, será necessário implementar obras, planejamentos e investimentos focados em prevenção. No entanto, uma estratégia só será efetiva se levar em consideração a dimensão humana da tragédia. É essencial incluir no debate questões relacionadas à saúde mental, educação emocional, fortalecimento de comunidades e políticas de longo prazo.
As marcas deixadas pelas enchentes trazem consigo uma responsabilidade coletiva. O Rio Grande do Sul necessita de um cuidado ativo, escuta e de políticas que assegurem que ninguém enfrente essa jornada sozinho. A verdadeira reconstrução não deve ser medida apenas em estruturas materializadas, mas sim em vidas que sejam reintegradas com dignidade. Se a experiência da enchente foi coletiva, o processo de cura também precisa ser compartilhado por todos.