Na noite de terça-feira (2), destacou-se o 14º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, que contou com a presença de importantes figuras da ciência nacional, como a sanitarista e ex-ministra da Saúde Nísia Trindade, e os epidemiologistas Carlos Monteiro e Maurício Barreto. Ambos são reconhecidos por suas contribuições significativas para a saúde no Brasil e possuem influência global. O evento foi mediado por Reinaldo Guimarães, vice-presidente da Abrasco.
Maurício Barreto, criador do Centro de Integração de Dados e Conhecimento para Saúde (Cidacs), localizado em Salvador, atua na análise de dados que possibilitam entender os efeitos de programas sociais sobre a saúde da população. O Cidacs, que começou sua parceria com o Ministério do Desenvolvimento Social em 2011, possui atualmente informações sobre 140 milhões de brasileiros, potencializando a pesquisa sobre como as condições sociais afetam a saúde.
Barreto destacou que o Bolsa Família, por exemplo, não só aumentou a renda das famílias mais pobres como também trouxe benefícios diversos à saúde, como a redução da mortalidade infantil e materna. Esses dados ilustram a importância de unir a academia e a gestão pública para enfrentar as desigualdades sociais.
Carlos Monteiro, da Universidade de São Paulo, também se fez presente e falou sobre sua pesquisa inovadora que transformou a compreensão sobre alimentação. Ele é um dos criadores da classificação NOVA, que categoriza alimentos de acordo com seu grau de processamento. Monteiro alertou que os ultraprocessados, muito comuns atualmente, têm sido prejudiciais à saúde, aumentando casos de obesidade e doenças crônicas.
Ele relatou que seu trabalho impactou políticas alimentares em diversos países, inspirando diretrizes globais de saúde. Monteiro apontou que a estrutura da indústria alimentícia tem mudado os hábitos alimentares da população, levando a uma maior incidência de problemas de saúde.
Em seu discurso, a ex-ministra Nísia Trindade ressaltou a necessidade de que as descobertas científicas sejam ouvidas e aplicadas nas políticas públicas de saúde. Ela elogiou o trabalho de Monteiro e Barreto, destacando que as contribuições deles estão além das publicações científicas; elas têm o potencial de influenciar diretamente a formação de políticas que beneficiem a sociedade.
Ao longo do debate, Nísia enfatizou a importância do investimento em ciência e tecnologia para o avanço da saúde pública. Destacou que a interação entre a pesquisa e a prática na saúde deve ocorrer a partir do diálogo e da escuta das demandas sociais, visando sempre melhorar os indicadores de saúde da população brasileira.
O encontro reafirmou a relevância da pesquisa científica no contexto da saúde coletiva e a necessidade de um esforço conjunto entre academia e poder público para enfrentar desafios históricos e as desigualdades presentes no país.