09/02/2026
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Jovens homens são os que mais buscam internação psiquiátrica

Os homens de 15 a 29 anos representam 61,3% das internações por problemas de saúde mental no Sistema Único de Saúde (SUS). A taxa de internações nessa faixa etária é de 708,4 por 100 mil habitantes, o que é 57% maior do que a observada entre as mulheres, que é de 450 por 100 mil, de acordo com um estudo recente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

A principal causa das internações de homens jovens é o abuso de substâncias psicoativas, responsável por 38,4% dos casos. Dentre esses, 68,7% envolvem o uso de múltiplas drogas, seguido pela cocaína (13,2%) e pelo álcool (11,5%). No total, tanto homens quanto mulheres com idade entre 15 e 29 anos tiveram 262.606 internações relacionadas à saúde mental, totalizando 579,5 caso por 100 mil habitantes. As taxas de internação são ainda mais altas entre aqueles de 20 a 24 anos (624,8) e 25 a 29 anos (719,7), superando a média de internações em adultos acima de 30 anos, que é de 599,4.

Entre as mulheres jovens, os transtornos do humor, como depressão e ansiedade, são a principal causa de internação, representando 36,7% dos casos. A depressão sozinha é responsável por 61% dessas internações. Os altos índices estão associados a fatores como longas jornadas de trabalho, sobrecarga de cuidados em casa, assédio no ambiente de trabalho e insegurança em suas comunidades.

André Sobrinho, coordenador da Agenda Jovem da Fiocruz e um dos autores do estudo, relaciona esses dados a questões culturais e sociais. Ele destaca que padrões de masculinidade, precariedade nas condições de trabalho e educação, além da pressão por desempenho, podem contribuir para o adoecimento em jovens.

A pesquisa foi realizada com dados de internações, óbitos e atendimentos na Atenção Primária à Saúde (APS) entre jovens de 15 a 19 anos, usando informações disponíveis de 2022 a 2024. Ao analisar esses números, os pesquisadores identificaram que 11,3% das consultas dos jovens em serviços de saúde mental foram relacionadas ao tema, um percentual bem inferior aos 24,3% observados na população geral.

Luciane Ferrareto, também pesquisadora da Fiocruz, ressalta que os dados evidenciam a influência do machismo estrutural sobre a vida de meninas e mulheres desde a infância, refletindo em uma pressão adicional na vida adulta. Ela aponta que a sobrecarga de responsabilidades em casa pode levar as mulheres a abandonar seus estudos e empregos, agravando problemas de saúde mental.

O psiquiatra Dartiu Silveira, professor da Universidade Federal de São Paulo, afirma que os dados refletem uma realidade percebida na prática clínica, onde jovens, especialmente aqueles em situação de vulnerabilidade, são mais suscetíveis a problemas psicológicos que muitas vezes não são diagnosticados corretamente. Segundo ele, a atenção às dores e ao sofrimento dos jovens ainda é insuficiente, e a sociedade precisa prestar mais cuidado com essa faixa etária.

A taxa de suicídio entre os jovens é alarmante, com 31,2 casos por 100 mil habitantes, superior à média da população em geral, que é de 24,7. Entre os povos indígenas, a situação é ainda mais grave, com uma taxa de suicídio de 62,7 por 100 mil habitantes, atingindo até 107,9 entre homens indígenas de 20 a 24 anos.

A pesquisa indica que os conflitos territoriais e a dificuldade de acesso a serviços de saúde adequados nos territórios tradicionais agravam a situação dessa população. A depressão é frequentemente apontada como um fator de risco para suicídio em jovens, e o uso de substâncias muitas vezes é uma tentativa de automedicação a um sofrimento emocional.

Mudanças no comportamento, como tristeza persistente, apatia e perda de interesse em atividades do cotidiano, são sinais de alerta importantes. A frequência no uso de substâncias, como álcool ou drogas, também é um indicador crucial para o bem-estar da saúde mental. O especialista Silveira recomenda que a internação deve ser considerada em casos graves, especialmente onde há risco de suicídio, mas o tratamento ambulatorial costuma ser mais eficaz em muitos casos.

A situação revela a necessidade de uma abordagem mais atenta e qualificada para a saúde mental entre os jovens, destacando a importância de apoio familiar e redes comunitárias para a recuperação.

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