08/02/2026
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Saúde mental: a relação entre renda e trabalho

Projetos de Economia Solidária Melhoram a Vida de Usuários de Saúde Mental

Nos últimos anos, uma das estratégias mais eficazes para atender as necessidades da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) tem sido a promoção de projetos de economia solidária voltados para usuários dos serviços de saúde mental. Essa iniciativa surge em um contexto de desigualdade social, onde muitas pessoas têm dificuldades em acessar necessidades básicas e oportunidades de trabalho.

O conceito de economia solidária, defendido pelo economista Paul Singer, propõe uma alternativa à exclusão que o mercado de trabalho formal pode criar. A ideia é que a economia solidária funcione como uma resposta organizada, oferecendo alternativas de geração de renda e autonomia a quem mais precisa.

As cooperativas sociais estão no centro dessa transformação. Elas se dedicam a gerar renda de maneira democrática, priorizando a dignidade de seus membros, sem se focar apenas no lucro. No campo da saúde mental, essas cooperativas têm mostrado resultados positivos e contam com o respaldo legal da Lei nº 9.867/99, que reconhece sua importância para grupos em situações de vulnerabilidade, como pessoas com deficiências, ex-presidiários e jovens em risco social.

Além de criar uma forma de emprego que não se limita ao mercado tradicional, essas iniciativas podem ajudar a evitar que os usuários sejam reencaminhados para os serviços de saúde mental de forma repetida, o que é chamado de “porta giratória”. Com isso, é possível oferecer uma alternativa que ajuda a superar a dependência de benefícios sociais, um problema que afeta muitos desses indivíduos, que frequentemente têm dificuldades para inserir-se no mercado formal.

O Papel do Trabalho na Reabilitação

A busca por estratégias que promovam a reabilitação social é um direito daqueles que recebem tratamento de saúde mental. No entanto, o trabalho nem sempre foi visto de forma positiva nesse contexto. Historicamente, a laborterapia, que defendia a cura pelo trabalho, era utilizada em instituições que se assemelhavam a prisões. A partir da ideia de que o ócio poderia levar à loucura, pessoas consideradas “doentes mentais” eram submetidas a longas jornadas de trabalho sem remuneração.

Outra abordagem comum era a arteterapia, que, embora vista como terapêutica, frequentemente desconsiderava a produção artística dos pacientes, tratando-os apenas como sujeitos a serem observados, sem reconhecer seu potencial criativo.

Mudanças começaram a acontecer nas últimas décadas, inspiradas, por exemplo, pelo psicoterapeuta François Tosquelles, que desenvolveu o conceito de clubes terapêuticos autogestionados na França. Na Itália, experiências de fechamento de manicômios inspiraram a criação de cooperativas sociais que atuam fora do ambiente hospitalar, servindo como modelo para o Brasil.

Histórias de Sucesso no País

No Brasil, a evolução da saúde mental começou em 1946 com a médica Nise da Silveira, que fundou uma seção de terapia ocupacional no Rio de Janeiro, revolucionando o cuidado em saúde mental e reconhecendo o valor da produção dos pacientes internados. Desde então, a Reforma Psiquiátrica, pautada pela ideia de que “nada sobre nós sem nós”, contribuiu para o surgimento de inúmeras iniciativas bem-sucedidas.

Exemplos incluem a Libersol em Curitiba, a Geração POA em Porto Alegre, a Ciranda Sumaúma em Rio Branco e o Trabalharte em Juiz de Fora. Esses projetos não são apenas terapias, mas sim formas de cidadania e expressão que garantem a dignidade e a identidade dos participantes como artistas e trabalhadores.

Iniciativas culturais, como o Loucura Suburbana e o Tá Pirando, Pirado, Pirou durante o Carnaval no Rio de Janeiro, também têm mostrado que a criatividade pode ser uma ferramenta poderosa de reabilitação social, gerando renda e promovendo inclusão.

Desafios e Oportunidades

Apesar dos avanços, ainda existem muitos desafios a serem enfrentados. O mercado de trabalho formal continua a ser uma barreira para muitos dos participantes desses projetos, dificultando a sustentabilidade de suas iniciativas. Portanto, é essencial olhar para a saúde mental de maneira holística, além da simples ausência de doenças.

Dados recentes mostram que o Brasil tem um dos maiores índices de afastamentos do trabalho devido a problemas de saúde mental. Isso indica que a adaptação ao sistema atual de trabalho pode não ser um indicador de boa saúde emocional. A reflexão sobre as relações de trabalho e a qualidade de vida é urgente, levantando questionamentos sobre a possibilidade de transformar esses vínculos em algo mais saudável e sustentável.

Portanto, para garantir direitos e promover a dignidade dos indivíduos, é fundamental que a sociedade e o Estado olhem para essas questões de forma integrada, buscando novas abordagens e soluções que atendam às reais necessidades da população.

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