O setor de planos de saúde enfrenta pressões constantes de consumidores, que relatam reajustes altos, cancelamentos sem aviso prévio e dificuldades no acesso a tratamentos essenciais. Especialistas apontam que o setor precisa se adaptar ao envelhecimento da população e à integração de novas tecnologias, sem prejudicar os beneficiários.
Até recentemente, as operadoras enfrentavam um prejuízo significativo, mas desde 2025, os resultados econômicos começaram a melhorar. Bruno Sobral, diretor-executivo da Fenasaúde, que representa diversas operadoras como Bradesco Saúde e SulAmérica, indica que a expectativa é de estabilidade nos próximos meses, relacionada a um controle adequado na adoção de novas tecnologias.
Por outro lado, Gustavo Ribeiro, presidente da Abramge, que representa mais de 140 operadoras, menciona que a recuperação está em curso, mas ainda de forma desigual, especialmente para pequenas e médias empresas que enfrentam desafios financeiros e dificuldades em manter a qualidade do atendimento.
A questão da longevidade é vista como um desafio muito relevante, pois pode afetar a sustentabilidade do sistema de saúde. Um relatório do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar ressalta a necessidade de as empresas se prepararem para o aumento da população idosa, que é um fenômeno natural.
Marina Paullelli, coordenadora do programa de Saúde do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), destaca que não é possível prever individualmente quando uma pessoa ficará doente, mas é possível avaliar riscos coletivamente, o que pode ajudar a proteger os consumidores de práticas abusivas.
Um aspecto importante é a discussão no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a aplicação da proibição de reajustes por faixa etária em contratos de planos de saúde. A questão envolve contratos assinados antes de 2004 e foi suspensa para análise posterior. Paullelli argumenta que questões econômicas não devem ser um motivo para flexibilizar regulamentos, lembrando que a regulamentação do setor foi vista como potencialmente prejudicial no passado.
No ano anterior, o STF também decidiu que os planos de saúde devem cobrir tratamentos não listados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), desde que atendam a cinco critérios técnicos. Essa decisão foi bem recebida pelas operadoras, que esperam economizar com isso.
A judicialização de questões relacionadas à saúde também é um tema relevante. Um relatório do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) indica que as decisões judiciais favorecem frequentemente o direito à saúde, especialmente na Justiça estadual. Apesar disso, a médica Ana Maria Malik, professora da FGVsaúde, acredita que a judicialização não é uma tendência futura, ressaltando que muitas vezes ocorre pela falta de regras claras, que deixam os consumidores confusos.
Malik aponta que as operadoras de saúde estão se tornando cada vez mais semelhantes entre si, com poucas diferenças significativas, além do fato de serem lucrativas ou não.
A questão da cobertura dos planos ganhou destaque com a ANS propondo uma consulta pública para a criação de um tipo de plano que cobriria apenas consultas eletivas e exames, sem incluir internações ou pronto-socorro. Essa proposta foi criticada pelo Ministério Público Federal.
O professor Lucas Nogueira, da Faculdade de Saúde Pública da USP, observa que a segmentação excessiva nos contratos dos planos de saúde é um tema recorrente nas discussões do setor. Ele enfatiza que futuras opções de saúde suplementar dependerão das escolhas políticas, como subsídios e incentivos fiscais.
Além disso, para a médica Ana Maria Malik, há a necessidade urgente de uma regulação mais eficaz por parte da ANS. Ela destaca que as operadoras também devem se esforçar para oferecer serviços relevantes para a população, assegurando assim uma cobertura mais justa e acessível.