O setor de planos de saúde no Brasil enfrenta críticas constantes de consumidores, que se queixam de aumentos abusivos, cancelamentos sem aviso prévio e dificuldade de acesso a tratamentos essenciais. Especialistas afirmam que o setor deve se adaptar ao envelhecimento da população e à integração de novas tecnologias, tendo como prioridade proteger os beneficiários.
Recentemente, o diretor-executivo da Fenasaúde, Bruno Sobral, comentou que 2025 marcou o início de uma recuperação financeira para o setor, prevendo uma fase de estabilidade. Ele destacou que essa estabilidade está ligada à adoção controlada de tecnologias. A Fenasaúde representa grandes operadoras, como Bradesco Saúde e SulAmérica.
Por outro lado, Gustavo Ribeiro, presidente da Abramge, que reúne mais de 140 operadoras, ressalta que a recuperação não é uniforme. Ele lembrou que pequenas e médias operadoras ainda enfrentam graves dificuldades econômicas, o que pode afetar a qualidade do atendimento e a estrutura desses serviços.
Um ponto crucial levantado por especialistas é a disparidade entre o aumento da longevidade e a sustentabilidade do sistema de saúde. O Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) destacou essa questão como um desafio significativo. A coordenadora do programa de Saúde do Idec, Marina Paullelli, defendeu que o envelhecimento da população deve ser encarado como uma realidade com a qual as empresas precisam lidar, visando um futuro melhor.
Paullelli também mencionou que, embora seja difícil prever problemas de saúde em nível individual, é possível fazer previsões no nível coletivo. Isso ajudaria a calcular riscos e a proteger os consumidores de práticas abusivas. Esse argumento foi utilizado pelo Idec em um julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a necessidade de equilibrar reajustes de planos de saúde com a faixa etária dos beneficiários. A análise desse caso foi suspensa pelo ministro Alexandre de Moraes.
Além disso, o STF já decidiu que os planos de saúde precisam cobrir tratamentos não listados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), desde que atendam a critérios técnicos. Essa decisão foi bem recebida pelas operadoras, que esperam economizar com isso.
É importante notar que o Judiciário tem atuado como mediador em disputas entre consumidores e operadoras. Um relatório do Conselho Nacional de Justiça indicou que as decisões têm favorecido o direito à saúde, com alta taxa de aprovação de pedidos em juizados.
Apesar desse cenário, a médica Ana Maria Malik, professora do FGVsaúde, acredita que a judicialização não se consolidará como uma tendência futura. Ela argumenta que muitas queixas surgem da falta de clareza nas regras, o que confunde os consumidores sobre o que realmente estão adquirindo.
Malik também observou uma homogeneização entre os planos de saúde, que têm se tornado mais semelhantes, com poucas diferenças em relação a cooperativas médicas ou planos de grupo. Atualmente, as principais distinções são entre planos lucrativos e não lucrativos, além da estrutura de atendimento.
Recentemente, a ANS abriu uma consulta pública para discutir a possibilidade de criar um plano de saúde que cobre apenas consultas e exames, sem incluir internações ou atendimentos de emergência. Essa proposta foi criticada pelo Ministério Público Federal, que levanta preocupações sobre a qualidade do atendimento.
Lucas Nogueira, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, comentou que as operadoras têm interesse em criar planos segmentados que poderiam prejudicar os consumidores. Ele defende que a regulação da ANS deve ser eficiente e que as operadoras precisam se comprometer a oferecer serviços de qualidade.
Por fim, a continuidade dos planos de saúde e sua evolução dependerão das decisões políticas que o país tomar em relação a subsídios e incentivos fiscais, ressaltou Nogueira. Isso poderá impactar não apenas o acesso à saúde, mas também a qualidade dos serviços oferecidos à população.