Os custos crescentes, o envelhecimento da população e a falta de profissionais estão pressionando o sistema de saúde do país. Isso tem levado hospitais e operadoras a buscar novas soluções para tornar os serviços mais eficientes. Anthony Eigier, CEO e cofundador da NeuralMed, aponta que um dos maiores problemas do setor é a fragmentação dos dados, ou seja, as informações estão espalhadas por sistemas que não se comunicam entre si.
Em uma conversa sobre o futuro da saúde, Eigier defendeu a utilização da inteligência artificial (IA) como a chave para evitar um colapso no sistema. Ele destaca que a IA pode ajudar a integrar dados clínicos, antecipar diagnósticos e reduzir internações que poderiam ser evitadas. “O problema não é a falta de dados, mas sim o excesso de informações desorganizadas. Quando conseguimos organizar esses dados, a abordagem no cuidado ao paciente muda completamente”, explica.
A NeuralMed busca conectar as informações dispersas entre os diferentes sistemas hospitalares, como prontuários eletrônicos, resultados de exames, prescrições médicas e histórico familiar. Essa integração permite que algoritmos de IA identifiquem riscos de saúde, priorizem pacientes e melhorem os fluxos de atendimento em hospitais, clínicas e redes de saúde.
Eigier ressalta que a intenção não é substituir médicos e enfermeiros, mas sim reduzir o tempo que as equipes gastam em tarefas administrativas e operacionais. Muitas vezes, esses profissionais se tornam “operadores de dados”, navegando por várias telas para encontrar informações que já existem, mas estão desorganizadas. Com uma melhor organização dos dados, a tecnologia permite que as equipes tenham mais tempo para focar no atendimento direto ao paciente.
Um impacto significativo dessa abordagem é a possibilidade de antecipar diagnósticos. Através da análise de informações clínicas que podem parecer irrelevantes quando vistas isoladamente—como exames realizados por outros motivos ou o histórico familiar—, a IA é capaz de detectar riscos antes que a doença avance. Um exemplo dado por Eigier ilustra essa utilidade: após um acidente de trânsito, um paciente que passou por exames focados apenas no trauma foi avaliado pela IA. Essa tecnologia identificou a presença de um nódulo pulmonar e um histórico de tabagismo, levando a um alerta para uma avaliação oncológica, o que resultou em um diagnóstico precoce de câncer de pulmão.
Além disso, há uma necessidade urgente de reformular o sistema de saúde devido às mudanças demográficas. Nos próximos anos, espera-se que o número de idosos supere o de crianças no país, aumentando a demanda por atendimento médico e controle de doenças crônicas. Portanto, manter um modelo hospitalocêntrico, que foca apenas no tratamento de emergências, pode não ser financeiramente sustentável.
A alternativa, segundo Eigier, é usar a inteligência artificial como uma ferramenta para coordenar o cuidado fora do ambiente hospitalar. Isso ajudaria a monitorar pacientes e a evitar que situações simples avancem para condições mais complicadas.
Ele acredita que a adoção da IA na saúde deve acelerar nos próximos anos, impulsionada tanto pela necessidade econômica quanto pela crescente maturidade dessa tecnologia. “Agora, a questão não é apenas sobre inovação, mas sobre a sustentabilidade do sistema de saúde”, conclui.