Conheça Annette Kellerman, a pioneira do início do século XX que quebrou recordes de natação, saltou de penhascos de 27 metros e foi a primeira mulher a aparecer nua em um filme de grande sucesso.
Annette Kellerman nasceu em 1886, uma época em que as mulheres usavam roupas pesadas de lã na praia ou cobriam as pernas com meias. Como uma futura nadadora recordista, Kellerman achou que essas roupas eram como “correntes de chumbo” que dificultavam sua performance nas competições.
Ela então criou um maiô justo que lhe deu vantagem nas competições, enfrentando até mesmo nadadores homens. Mas sua ousadia não parou nas águas, pois ela também começou a quebrar barreiras em Hollywood e na sociedade.
Annette Kellerman: a superação desde a infância
Kellerman não se tornou a atleta excepcional que foi por acaso. Desde pequena, ela tinha as pernas fracas e precisava usar pesadas órteses de metal. Seus pais, músicos que viviam em Sydney, Austrália, incentivaram-na a nadar para fortalecer as pernas. Em pouco tempo, Annette se tornou uma nadadora premiada.
“Somente uma pessoa com deficiência pode entender a enorme alegria que eu sentia ao nadar”, recordou Kellerman. Assim que aprendeu a nadar, passou a se jogar em qualquer corpo d’água sempre que podia.
Na adolescência, em 1902, ela estabeleceu um recorde feminino na milha em New South Wales, nadando a distância em menos de 34 minutos. Em 1905, Kellerman já detinha vários recordes mundiais e decidiu quebrar mais barreiras. Ela venceu homens em uma corrida pelo rio Sena e tentou atravessar o Canal da Mancha. Após mais de dez horas nadando, admitiu que possuía resistência, mas não a força bruta necessária.
O maiô polêmico de Annette Kellerman
Além das águas, Annette causou surpresa nos Estados Unidos com seu maiô de corpo justo. Em 1907, enquanto se preparava para uma corrida de 21 quilômetros na Praia de Revere, em Boston, ela se espantou ao ver os trajes de banho das mulheres americanas.
Diferente das mulheres que usavam espartilhos e vestidos volumosos, Kellerman se destacou com seu maiô que expunha braços e pernas. Com shorts bem acima dos joelhos, foi denunciada por um banhista e acabou presa por indecência. Sua prisão e seu maiô escandaloso foram manchete nos jornais.
“Eu sendo presa!” respondeu Kellerman, surpresa com a situação. Um juiz então decidiu que ela poderia usar o maiô, desde que se cobrisse com uma capa até chegar à água. Kellerman aproveitou a oportunidade e começou a vender seus maiôs nos Estados Unidos como “O maiô Sun-Kist de Annette Kellerman”. Em seu livro de 1918, argumentou que “a água é 700 vezes mais pesada que o ar, e nadar com roupas soltas é o mesmo que carregar uma pedra no pescoço.”
Harvard a declara ‘A Mulher Perfeita’ e Hollywood a recebe de braços abertos
Após sua polêmica prisão, a fama de Annette decolou. Em 1908, um professor de Harvard, Dudley Sargent, a procurou para uma pesquisa que, nos dias de hoje, é vista com desdém. Ele comparou as medidas de milhares de mulheres com a Vênus de Milo para encontrar “a Mulher Perfeita”. Annette se destacou e brincou: “Apenas da cintura para baixo”.
Sábia nos negócios, ela usou o título em sua carreira. Um anúncio de 1912 dizia: “A Mulher Perfeita, Annette Kellerman, usa e recomenda o sapato perfeito – o La France.” O título a ajudou a impulsionar sua carreira no vaudeville, onde se apresentou como “A Mulher Perfeitamente Formada”, viajando pelo mundo com danças aquáticas. Conhecida como “Sereia Australiana”, sua apresentação ajudou a popularizar a natação sincronizada.
Além disso, Annette também realizava acrobacias e andava na fita bamba. Ela fez a transição do vaudeville para o cinema, estrelando filmes mudos como “A Filha de Netuno” em 1914 e “A Filha dos Deuses” em 1916. No primeiro, ela se apresentou em perigosos saltos, inclusive um que a deixou inconsciente.
Depois, um tanque subaquático explodiu, causando ferimentos a Kellerman, mas isso não a parou. Ela saltou com sucesso de uma altura de 18 metros em uma piscina cheia de crocodilos e se lançou do alto de 27 metros no mar. Quando executivos cortaram uma cena de salto em “A Filha dos Deuses”, ela reclamou: “É sempre assim. Alguém sempre tenta acabar com a alegria da vida.”
Em “A Filha dos Deuses”, Kellerman também quebrou barreiras. O filme se tornou a primeira produção a ultrapassar um milhão de dólares, e Annette foi a primeira artista a aparecer nua em um filme de grande porte.
Anos Finais e Legado
Após se destacar como nadadora, estrela de cinema e autora, Annette se aposentou do estrelato e abriu uma loja de produtos naturais em Long Beach, Califórnia. Tornou-se uma espécie de guru de saúde e fitness, sendo vegetariana a vida inteira. Sua fama continuou, mesmo quando Ester Williams, uma nova estrela que também era nadadora, interpretou Annette em 1952 no filme “Sereia de um Milhão de Dólares”.
Quando um novo maiô ousado surgiu na década de 1940, a imprensa foi atrás de Kellerman para saber sua opinião. Apesar de ser uma inovadora, ela se mostrou crítica em relação ao biquíni. “O biquíni é um erro”, disse ela. “Apenas duas em cada milhão de mulheres podem usá-lo. E é um grande engano tentar.”
Kellerman explicou: “O biquíni mostra demais. Ele revela uma linha que faz a perna parecer feia, mesmo nas melhores figuras. Um corpo é mais bonito quando tem uma linha contínua e harmoniosa.”
Em 1970, Annette retornou à Austrália com seu marido, onde continuou a nadar até falecer aos 89 anos.
Annette Kellerman foi uma verdadeira pioneira que desafiou normas sociais e mudou a forma como as mulheres eram vistas na natação e no cinema, deixando um legado que ainda ressoa hoje.