A Incrível História de David Camm: Um Injustiçado
David Camm, um ex-policial estadual de Indiana, enfrentou três julgamentos por assassinato e passou 13 anos na prisão por crimes que não cometeu. Ele foi finalmente inocentado em 2013. Essa história mostra como falhas no sistema judicial podem levar a processos injustos e condenações erradas.
O Terrível Crime
No dia 28 de setembro de 2000, David Camm voltou para casa após jogar basquete e encontrou uma cena horrível. Sua esposa, Kim, e seus dois filhos pequenos, Bradley e Jill, foram mortos a tiros na garagem de sua casa em Georgetown, Indiana.
Depois de chamar a polícia, Camm se tornou o principal suspeito do assassinato. A evidência parecia contra ele: havia manchas de sangue em sua camisa e seu histórico de infidelidades foi explorado durante o julgamento.
David Camm passou por três julgamentos e ainda enfrentou 13 anos atrás das grades. Mas, ao longo do tempo, ficou claro que os investigadores não analisaram corretamente as evidências que poderiam apontar para outro suspeito.
A Vida de David Camm Antes do Crime
David Camm viveu uma vida aparentemente normal em Georgetown. Casou-se com Kimberly Renn em 1989 e tiveram dois filhos: Bradley de sete anos e Jill de cinco. Ele trabalhava como policial estadual há cerca de dez anos e parecia ter uma vida familiar feliz.
Na noite dos assassinatos, Camm disse que saiu para jogar basquete por volta das 19 horas. Quando voltou, encontrou sua família assassinada. Às 21h30, ele ligou para o antigo posto de polícia, o que levantou suspeitas. Por que não ligou para o 911 imediatamente?
As evidências da cena do crime eram chocantes. Kim e Jill foram mortas com tiros na cabeça; Kim foi encontrada na garagem em sua roupa íntima, com sapatos e meias cuidadosamente colocados no carro. Bradley estava deitado no banco de trás, como se tentasse escapar, também com um tiro no peito. Camm, tentando reanimar o filho, acabou contaminando a cena do crime.
O Primeiro Julgamento de David Camm
Durante o primeiro julgamento, cerca de 15 mulheres depuseram afirmando que Camm teve relacionamentos extraconjugais. Os promotores argumentaram que as manchas de sangue na camisa dele e seu histórico de infidelidades provavam que ele matou a família.
Além disso, alegaram que David teria molestado Jill, apesar da falta de provas concretas. O médico legista apenas mencionou que Jill sofreu um “trauma contundente” em suas partes íntimas nas 24 horas anteriores à sua morte, mas não provou que David foi o responsável.
Entretanto, os 11 jogadores de basquete com quem Camm estivera naquela noite testemunharam que ele não saíra do ginásio e não apresentou comportamento estranho. Apesar do forte álibi, em 2002, David foi considerado culpado e condenado a 195 anos de prisão.
Após o julgamento, Camm apelou e, em 2004, o Supremo Tribunal de Indiana anulou sua condenação, alegando que não havia provas suficientes para provar que suas infidelidades eram um motivo.
Novas Evidências e Outra Condenação
Em 2000, uma camiseta com o DNA de um homem desconhecido foi encontrada na cena do crime, mas a Promotoria não a testou antes do primeiro julgamento. Em 2005, esse DNA foi analisado e coincidiu com o de Charles Boney, um criminoso conhecido.
Boney havia deixado uma impressão da mão no carro da família Camm, ligando-o ao crime. Apesar das novas evidências, David e Boney foram julgados como co-autores. Boney alegou que ele foi à casa da família apenas para vender uma arma a David, que teria atirado na família.
Boney foi condenado a 225 anos de prisão, mas isso não livrou Camm de problemas. No segundo julgamento, os promotores afirmaram que Kim havia descoberto que David molestara Jill e que ele matou todos para encobrir o crime. Testemunhos de amigas de Kim afirmaram que ela estava angustiada, mas a defesa argumentou que ela nunca mencionou descontentamento para ninguém e ainda havia renovado seu quarto.
O Segundo Julgamento e A Nova Condenação
No segundo julgamento, os peritos da Promotoria afirmaram que as manchas de sangue na camisa de David eram de um padrão que só poderia vir de ele estar perto de Jill no momento do assassinato. Contudo, vários especialistas disseram que o sangue poderia ter sido resultado de ele acidentalmente tocar Jill após a morte.
Apesar disso, o júri o considerou culpado, acreditando nas testemunhas que afirmaram que Jill havia sido molestada. David foi condenado à prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional. Mas, em 2009, o Supremo Tribunal de Indiana anulou essa condenação, afirmando que não havia evidências suficientes para provar a acusação de molestação, mandando um terceiro julgamento.
O Terceiro e Último Julgamento
No terceiro julgamento, os promotores argumentaram que a motivação de David teria sido os seguros de vida que Kim havia feito recentemente. Charles Boney voltou a depor, alegando que foi chamado à casa para vender uma arma. Segundo ele, quando Kim e as crianças chegaram, David teria abordado o veículo e atirado neles.
Boney alegou que David ainda lhe entregou a arma, dizendo que ele era o responsável. Ele também afirmou que, ao entrar em pânico, havia colocado os sapatos de Kim no teto do carro. A defesa encontrou um especialista que antes ajudara a Promotoria, mas que exagerou suas credenciais, sem deixar claro que as manchas de sangue não significavam que David puxou o gatilho.
Testes de DNA mostraram que Boney havia tocado as roupas de Jill e Kim, invalidando suas alegações de que nunca estivera em contato com as vítimas. Por fim, em 24 de outubro de 2013, David Camm foi considerado inocente de todas as acusações e deixou a prisão.
O Legado dos Julgamentos de Camm
Após sua libertação, David Camm passou 13 anos na prisão e Charles Boney continua cumprindo sua pena. Os pais de Kim, Frank e Janice Renn, acreditam que Camm foi o responsável pelos assassinatos e processaram-no por morte injusta, mas desistiram em 2014.
Depois de ser inocentado, David Camm processou o estado de Indiana por 30 milhões de dólares e chegou a um acordo de 450 mil dólares com o condado de Floyd. Em 2022, ele foi compensado em 4,6 milhões de dólares por prisão injusta. Os julgamentos custaram mais de 4 milhões aos contribuintes antes do acordo civil.
David Camm deixou claro que “os julgamentos não foram justos”. Ele apontou que o júri ouviu evidências que não deveriam ter sido apresentadas, o que levou ao cancelamento das condenações em tribunais superiores. A história de Camm é uma reflexão importante sobre como o sistema judicial pode falhar e as consequências devastadoras que isso causa na vida de um indivíduo.