A saída de Xabi Alonso do comando do Real Madrid trouxe à tona um debate familiar no futebol europeu: a possibilidade de Jürgen Klopp, treinador do Liverpool, assumir o clube madrilenho. A discussão não se limita a saber se Klopp está disponível ou se seu currículo é adequado. Ela envolve também a compatibilidade entre suas ideias, a cultura do clube e a maneira como o poder é exercido no futebol.
Klopp é considerado um dos técnicos mais influentes de sua geração. Durante sua trajetória por clubes como Mainz, Borussia Dortmund e Liverpool, ele não apenas conquistou títulos, mas também moldou a identidade dessas instituições. Cada um desses clubes estava passando por desafios particulares e permitiu que Klopp implementasse sua filosofia de jogo e cultura, transformando-os em extensões de sua personalidade.
No Mainz, quando Klopp assumiu em 2001, o clube estava lutando contra a possibilidade de rebaixamento. No Dortmund, que ele começou a treinar em 2008, a equipe ainda se recuperava de uma grave crise financeira. Ao chegar ao Liverpool em 2015, encontrou um grande clube em busca de nova direção após anos sem títulos importantes. A característica comum de todas essas experiências é que os clubes eram flexíveis o suficiente para se adaptarem ao estilo de Klopp, permitindo que ele impusesse sua visão.
Contudo, essa flexibilização institucional não existe no Real Madrid. O clube é conhecido por sua força e tradição, e os treinadores que passam por lá devem se adaptar a essa realidade. A identidade do Real Madrid é muito antiga e nenhuma abordagem técnica pode alterá-la fundamentalmente. Portanto, não podemos falar em um “Real Madrid de Klopp” como se o estilo do treinador moldasse o clube.
Outro ponto relevante é a gestão de jogadores. Klopp é conhecido por desenvolver talentos e transformar jogadores em estrelas mundiais. Ele já fez isso com atletas como Lewandowski, Salah e Mané. No entanto, em sua carreira, raramente teve que lidar com um elenco repleto de superestrelas já consagradas.
No Real Madrid, os jogadores entram no clube com status e influência, e cabe ao treinador equilibrar as reputações desse grupo. Isso exige uma maneira diferenciada de trabalhar, onde a manutenção da imagem dos jogadores é tão importante quanto o resultado em campo. Os treinadores que tiveram sucesso no clube, como Zidane e Ancelotti, compreenderam a importância dessa dinâmica e adotaram uma postura de respeito e colaboração.
As diferenças entre Klopp e a estrutura do Real Madrid também se refletem em suas visões sobre o futebol moderno. Klopp tem sido crítico ao formato atual das competições e à sobrecarga de jogos, enquanto o presidente do Real Madrid, Florentino Pérez, valoriza fortemente a participação em torneios globais e a expansão da marca do clube. Isso gera uma incompatibilidade de filosofias, em que o treinador precisa alinhar-se com a visão política do clube.
Além disso, Klopp já deixou claro que não deseja assumir cargos de treinador por agora. Em 2024, ele aceitou um cargo na Red Bull e afirmou que havia encerrado sua fase como treinador. Após a demissão de Xabi Alonso, seu nome foi cogitado novamente, mas ele rapidamente negou qualquer interesse, reforçando que não pretende voltar ao comando de uma equipe por enquanto.
Esse posicionamento não parece ser algo temporário; reflete sua abordagem consciente sobre o desenvolvimento da carreira. Ele sempre escolheu os projetos certos em momentos adequados. Treinar o Real Madrid exigiria uma adaptação que pode não ser ideal para ele. O clube precisa de um treinador que compreenda a sua cultura e que atue como um gestor de uma herança histórica, em vez de um inovador que busca moldar uma nova identidade.
Klopp sempre se destacou por buscar desafios e contextos que permitissem uma transformação. No Real Madrid, ele não encontraria a mesma necessidade de combater uma “ortodoxia”. O clube é, por si só, uma referência no futebol. Essa situação pode não oferecer o ambiente estimulante que ele costuma buscar em sua carreira, onde conflitos e mudanças são elementos que alimentam sua energia criativa.