Em um cenário global marcado pela urgência de atender às questões climáticas, crises de saúde e a necessidade de inovações tecnológicas, a disputa por avanços científicos se tornou cada vez mais estratégica. O Brasil, frequentemente visto como um fornecedor de talentos e pesquisador, ainda enfrenta desafios para transformar descobertas científicas em produtos e serviços concretos. Nesse contexto, a Sthorm, uma organização brasileira dedicada à ciência de ponta, busca criar um caminho alternativo para a inovação no país.
A Sthorm se apresenta como uma infraestrutura privada que apoia inovações de alta complexidade em áreas como saúde, ciência, meio ambiente e biodiversidade. Seu modelo de funcionamento integra ciência básica e aplicação tecnológica com um foco na arquitetura econômica, visando acelerar projetos que normalmente levam mais tempo para se desenvolver. O conceito central da organização é “Pessoas e Planeta”, que busca equilibrar o impacto socioambiental com a viabilidade econômica.
Wilson Ferreira Junior, presidente do conselho da Sthorm, defende que é crucial reposicionar a inovação como um ativo estratégico. Ele destaca que, no Brasil, a alta taxa de juros dificulta a atração de investimentos de longo prazo, uma vez que muitos investidores preferem aplicar em opções mais seguras e de curto prazo. Essa cultura financeira pode afastar capital de projetos que requerem mais tempo para maturar, como os que envolvem pesquisa e desenvolvimento.
Esse desafio é amplificado pelo fenômeno conhecido como “Vale da Morte” da inovação. Muitas iniciativas que nascem no ambiente acadêmico, com promessas de sucesso, enfrentam barreiras devido à falta de financiamento e de infraestrutura adequada para prototipação e escalabilidade. A Sthorm reconhece que o mercado brasileiro ainda é pouco profundo para investimentos tecnológicos, o que aumenta a dependência de recursos públicos frequentemente limitados.
Para lidar com essas questões, a Sthorm propõe a criação de uma holding que permitirá compartilhar riscos entre projetos em diferentes estágios de maturidade. Ferreira Junior explica que essa abordagem busca alinhar interesses econômicos e criar uma governança eficiente. O grupo conta com mais de 100 sócios, em sua maioria pessoas físicas, e um capital que gira em torno de R$ 150 milhões, sendo muitos desses sócios cientistas.
Essa nova abordagem de inovação é semelhante ao que já é aplicado em ecossistemas mais desenvolvidos, onde ciência e financiamento estão interligados. Em 2025, pesquisadores como Joel Mokyr e Philippe Aghion foram laureados com o Prêmio Nobel de Economia por suas contribuições sobre como a inovação gera crescimento econômico. Isso reforça a ideia de que a prosperidade está ligada ao progresso tecnológico e à capacidade de substituir o antigo pelo novo.
Dentro desse contexto, a Sthorm quer se afirmar como um catalisador no Sul Global, onde a transformação de conhecimento acadêmico em produtos é ainda uma raridade. Marina Domenech, COO da organização, coloca em questão a falta de um mercado para inovações radicais no Brasil e a dependência de planejamento a longo prazo em pesquisa e desenvolvimento.
Domenech destaca que a Sthorm busca combinar impacto social e geração de receita, evitando tratar a ciência como um projeto filantrópico. Ela menciona que, embora o capital disponível pareça elevado em comparação com o mercado nacional, é modesto em relação aos padrões globais de investimento em pesquisa e desenvolvimento.
A iniciativa de saúde da Sthorm exemplifica essa abordagem. Ela prevê a construção de uma CDMO (Organização de Desenvolvimento e Fabricação por Contrato) para apoiar biotecnologias baseadas em ciência, tentando eliminar um gargalo que impede a produção local de medicamentos para ensaios clínicos. Atualmente, todas as amostras usadas em pesquisas no país precisam ser produzidas no exterior, o que encarece e demora o processo de desenvolvimento.
O projeto já possui um laboratório em Piracicaba (SP) e planeja expandir suas operações com uma fábrica para produção de lotes para pesquisa clínica, com previsão de funcionamento em 2028, tendo um investimento estimado de R$ 180 milhões. O terreno para a nova fábrica já foi doado pela prefeitura, e a Sthorm já estabelece parcerias com instituições renomadas, como a Fiocruz e o Instituto Butantan, evidenciando uma demanda por infraestrutura no setor.
Além disso, a organização está envolvida em outras iniciativas, como o desenvolvimento de biópsias líquidas para diagnóstico de câncer de mama e pesquisas que utilizam as propriedades do Zika vírus para o transporte de medicamentos no cérebro.
Outra área de atuação, chamada PlanetaryX, se concentra na transformação de ecossistemas preservados em ativos financeiros, usando tecnologias como mapeamento por satélite e blockchain. Lidar com questões climáticas de forma eficiente é um dos objetivos da Sthorm, que busca conectar investidores a comunidades que preservam o meio ambiente.
Recentemente, representantes da Sthorm participaram de eventos em Davos para discutir como os investimentos podem ser direcionados de maneira responsável, considerando os limites ambientais e a resiliência sistêmica, num momento em que os riscos climáticos e de saúde impactam a economia.
A mensagem central da Sthorm é que inovações de alta tecnologia não dependem apenas de boas ideias, mas também de governança adequada, infraestrutura industrial e financiamento específico. Ferreira Junior enfatiza que o objetivo não é o lucro imediato, mas a criação de um ambiente propício para que a inovação possa crescer e se desenvolver, ajudando a moldar um futuro mais sustentável e competitivo. O desafio é transformar as inovações em soluções práticas que possam agregar valor à economia nacional e internacional.