COP30 em Belém: Integrando Saúde e Ambiente nas Mudanças Climáticas
Durante a COP30, em Belém, a pesquisadora da Fiocruz e especialista em saúde ambiental, Sandra Hacon, discutiu a importância da conexão entre clima, ambiente e saúde. Hacon possui formação em Biologia e Ecologia e tem se dedicado a esta área por mais de 20 anos. Ela faz parte de importantes instituições, como o Painel Científico da Amazônia e a Rede Clima do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
Desde 2005, Hacon tem investigado como as mudanças climáticas impactam a saúde das populações, especialmente em contextos de desigualdade. Ela aponta que o aumento do desmatamento e as alterações ambientais estão levando à circulação de vírus e outros patógenos em diferentes regiões. Segundo a especialista, o desmatamento na Amazônia representa um problema que vai além da derrubada de árvores, afetando o ciclo da água, a biodiversidade e levando ao comércio ilegal de recursos naturais.
Na entrevista, Hacon destacou que é essencial incluir a saúde nas discussões sobre mudanças climáticas. Embora a questão tenha começado a ser abordada pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas em 2007, a integração ainda é limitada. Ela ressalta que saber que saúde e ambiente estão interligados é uma percepção que já faz parte da sabedoria de povos tradicionais, como indígenas e ribeirinhos.
Durante a COP30, Hacon notou uma participação significativa do público, o que demonstra uma crescente conscientização sobre as mudanças climáticas. A Amazônia, que abriga uma rica diversidade de culturas indígenas e organismos, enfrenta sérios riscos. A especialista citou a rápida disseminação de vírus, como o Oropouche, que se espalhou após o desmatamento.
Ela explicou que as condições ambientais, como aumento de temperatura e umidade, são favoráveis à multiplicação de doenças como a dengue, que está se tornando comum em várias partes do mundo. A chikungunya também é uma preocupação crescente, com o Brasil apresentando altas taxas de incidência em algumas regiões.
Hacon enfatiza que é necessário agir antes que os danos se tornem irreversíveis. Apesar da capacidade técnica existente, o sistema de saúde muitas vezes reage tardiamente às crises. A preparação para encarar esses desafios climáticos requer um sistema que funcione de forma proativa, integrando ações de monitoramento e resposta.
Ela destacou que iniciativas têm sido adotadas, como um aplicativo utilizado por comunidades para monitorar a saúde dos animais, ajudando a evitar surtos, como o de febre amarela. Contudo, a prevenção ainda é fraca e muitas vezes as ações ocorrem apenas após os problemas aparecerem.
Além disso, Hacon fez um apelo pela criação de programas voltados para povos indígenas em contato recente, que necessitam de monitoramento para evitar que doenças emergentes os atinjam.
Por fim, Hacon apontou que o Brasil tem potencial para liderar na América Latina, com suas instituições e pesquisadores qualificados. Contudo, é fundamental que as discussões sobre clima incorporem de fato a questão da saúde, reconhecendo que essa conexão é vital para a sobrevivência e bem-estar das populações. A saúde, embora essencial, permanece à margem de debates-chave, e é momento de colocar essa questão no centro das discussões sobre mudanças climáticas.