05/02/2026
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A morte de Benício e a crise ética na saúde

A morte do menino Benício, em Manaus, levanta questões sérias sobre a qualidade dos atendimentos médicos no país. Este evento não é apenas uma tragédia, mas evidencia problemas estruturais e de gestão na área da saúde. Vidas estão sendo perdidas devido a uma realidade em que profissionais atuam sem a formação e a supervisão necessárias.

Atualmente, há mais de 575 mil médicos ativos no país. No entanto, cerca de 210 a 225 mil desses profissionais, o que representa quase 40%, trabalham sem ter passado por residência médica. Isso significa que quase metade das pessoas que atuam em emergências, pediatria, maternidades e unidades de pronto atendimento não possuem a especialização adequada para lidar com situações críticas.

Ademais, o Brasil possui 405 escolas médicas, o segundo maior número do mundo, perdendo apenas para a Índia. Muitas dessas instituições foram criadas sem planejamento, muitas vezes por decisões judiciais, sem que houvesse uma estrutura satisfatória para a formação dos alunos. Assim, cursos foram abertos em cidades que carecem de hospitais adequados e supervisão de profissionais experientes. Essa expansão descontrolada não democratiza o acesso ao ensino médico; ela coloca em risco a qualidade do atendimento que os pacientes recebem.

No caso específico de Benício, a falta de estrutura teve consequências trágicas. A médica responsável não tinha especialização, não acompanhou o preparo do medicamento e negligenciou a avaliação do paciente durante o tratamento. Além disso, não havia um farmacêutico clínico disponível para verificar a dosagem e a diluição do remédio. Esses são problemas recorrentes em muitos serviços de saúde, e não exceções isoladas.

Apesar de o país formar entre 30 e 35 mil médicos por ano, cerca de 40% deles não entram em programas de residência médica. Isso é semelhante a emitir uma licença de piloto sem que a pessoa tenha cumprido as horas de voo necessárias. Os pacientes acabam sendo atendidos por profissionais que não passaram por um treinamento rigoroso, não participaram de simulações ou não foram devidamente avaliados, o que é crucial em situações de emergência.

Os dados mostram que centenas de milhares de brasileiros são atendidos diariamente por profissionais sem a capacitação necessária. Essa falta de formação impacta desde a avaliação inicial até a prescrição de medicamentos. Quando o sistema de saúde aceita essa precarização como normal, as tragédias se tornam consequências previsíveis.

É necessário um novo padrão no atendimento médico. A urgência desse cenário exige que o país exija mais de seus profissionais. Áreas como emergência e pediatria não devem ser tratadas de forma improvisada, e a administração de medicamentos não pode ser feita “na tentativa e erro”. Um hospital que não conta com médicos especialistas e uma equipe qualificada compromete a segurança dos pacientes.

Mudanças concretas são necessárias. Uma dessas mudanças deve ser a implementação do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica, que avalia estudantes de medicina no quarto e no sexto anos. A aprovação nesse exame deve ser uma condição para o exercício da profissão. Se uma instituição não alcança resultados satisfatórios, deve responder por isso. É fundamental realizar auditorias clínicas regulares em todos os hospitais, para analisar procedimentos, prescrições e erros, além de criar um sistema que permita aos cidadãos verificar a formação dos profissionais que irão atendê-los.

O Ministério da Educação (MEC) e o Ministério da Saúde devem trabalhar juntos para aumentar o número de vagas nos programas de residência médica, garantindo que cada médico recém-formado tenha a oportunidade de receber a formação especializada necessária.

A história de Benício deve servir como um alerta. O país não pode mais permitir que hospitais funcionem sem equipes capacitadas e protocolos de segurança claros. É essencial que políticas públicas sejam implementadas para garantir a qualidade do atendimento, aumentar a supervisão e se comprometer com a segurança do paciente.

Embora Benício não possa voltar, sua memória deve nos obrigar a corrigir os erros no sistema de saúde. Cada vida perdida por negligência representa um fracasso coletivo que não pode ser ignorado. É hora de exigir mudanças significativas e responsáveis na assistência à saúde.

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