A morte do pequeno Benício, em Manaus, destaca problemas sérios na área da saúde no país. O caso evidencia a falta de responsabilidade e a negligência que, infelizmente, fazem parte do sistema. Atualmente, mais de 575 mil médicos atuam no país, mas cerca de 40% deles, entre 210 e 225 mil, não possuem residência médica. Isso significa que uma grande parte dos profissionais que atendem em situações emergenciais, como pediatria e UTIs, não têm a formação especializada adequada para lidar com esses momentos críticos.
No país, existem 405 escolas de medicina, o segundo maior número do mundo, atrás apenas da Índia. Muitas dessas instituições foram criadas sem planejamento adequado, levando a uma formação deficiente. Algumas foram autorizadas por meio de decisões judiciais, sem que houvesse uma avaliação a respeito das condições necessárias para oferecer uma educação de qualidade. Isso resultou na abertura de cursos em cidades que carecem de infraestrutura, como hospitais de ensino e laboratórios para práticas adequadas.
O triste incidente envolvendo Benício ilustra esses problemas. A médica que o atendeu não possuía especialização e não acompanhou o preparo do medicamento. Além disso, não havia um farmacêutico clínico para verificar as doses e diluições, e a técnica de enfermagem também não tinha a supervisão necessária. Esses erros, que deveriam ser excepcionais, são na verdade uma realidade em muitos serviços de saúde pelo país.
Todos os anos, entre 30 mil e 35 mil médicos se formam, mas cerca de 40% não entram nos programas de residência. Isso é comparável a dar uma licença de piloto sem que a pessoa tenha tido horas de voo. O resultado disso é que muitos pacientes são atendidos por profissionais sem o treinamento necessário, o que pode marcar a diferença entre a vida e a morte em situações de emergência.
Os dados são alarmantes. Centenas de milhares de pessoas são atendidas diariamente por médicos que não têm a capacitação adequada. Isso impacta todos os aspectos do atendimento, desde a avaliação inicial até a prescrição de medicamentos.
Para mudar essa realidade, é fundamental exigir mais dos profissionais de saúde. O tratamento de emergência e a administração de medicamentos requerem habilidades específicas, e hospitais que não contam com médicos especialistas ou equipe qualificada não estão garantindo a segurança dos pacientes.
Uma proposta urgente é a implementação do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed). Esse exame será aplicado a todos os estudantes de medicina durante a graduação, e os resultados afetarão a autorização para o exercício da profissão. Além disso, é necessário instituir auditorias clínicas obrigatórias em todos os hospitais, analisando prescrições e outros procedimentos.
O Ministério da Educação e o Ministério da Saúde precisam trabalhar juntos para aumentar as vagas nos programas de residência médica, buscando garantir que todos os médicos recém-formados tenham a oportunidade de especialização.
A tragédia de Benício deve servir de alerta. É preciso promover mudanças efetivas na saúde, garantindo que as equipes e processos sejam de qualidade. O país não pode aceitar a falta de segurança e a precarização do atendimento médico. A memória de Benício deve não apenas ser lembrada, mas impulsionar uma transformação necessária no sistema de saúde. Cada vida importa, e é essencial que erros passíveis de prevenção deixem de ser uma realidade.