No mês da Consciência Negra, a contribuição de profissionais negros na área da saúde ganha destaque, mostrando que suas trajetórias estão mudando o cenário do cuidado e da pesquisa. Nos hospitais, consultórios e laboratórios, a representatividade negra, ainda em crescimento, vem acompanhada de histórias que remontam a um passado de batalhas e conquistas.
No Distrito Federal, um levantamento da Secretaria de Saúde revelou que há 15.487 profissionais negros na rede pública de saúde, sendo 2.225 autodeclarados pretos e 13.262 pardos. Esses trabalhadores desempenham um papel fundamental na transformação do sistema de saúde.
Entre eles, a fisioterapeuta neonatal Janayna Bispo é um exemplo de perseverança. Com 18 anos de experiência, ela é chefe da Unidade de Terapia Intensiva Neonatal do Hospital Universitário de Brasília (HUB). Janayna começou sua jornada na instituição em 2014, quando ingressou por meio de um concurso público que utilizava a política de cotas raciais. Desde então, ela enfrentou muitos desafios, não apenas os comuns à área da saúde, mas também questões ligadas à falta de representatividade. “Sempre surpreende as pessoas saberem que sou a chefe da UTI Neonatal”, observa.
Janayna destaca que o racismo institucional impacta até mesmo o atendimento aos pacientes. Ela relatou um caso marcante: uma mãe que, ao ser atendida por ela, expressou sua emoção por finalmente se sentir “vista” dentro de uma UTI. Esse momento reforçou a relação entre profissional e paciente e ajudou na evolução do cuidado ao bebê.
Além de seu trabalho clínico, Janayna se dedica a promover a educação antirracista em saúde. Com um grupo de colegas, ela está organizando o evento “Raízes que curam”, que visa sensibilizar profissionais de saúde sobre a importância da diversidade e inclusão.
Outro exemplo inspirador é a neurologista Júlia Carolina Ribeiro, que atua no Hospital DF Star. Ela ressalta que sua carreira sempre exigiu dela mais empenho. “Sempre precisei oferecer muito mais para estar no mesmo nível de competitividade, especialmente por ser mulher e negra”, explica. Júlia se sente motivada a servir de exemplo para jovens que aspiram a uma carreira na medicina, afirmando que o racismo é uma barreira que não define suas habilidades.
Eudes Judith Félix, técnica de enfermagem da Unidade Básica de Saúde de Planaltina, também traz à tona a luta contra o racismo. Com 20 anos de experiência na Secretaria de Saúde, ela enfrenta desafios constantes, como agressões verbais, muito por causa de sua identidade racial. “O racismo é crônico e ainda é preciso educar as pessoas sobre respeito e empatia”, diz Eudes, que se esforça para que seus pacientes se sintam acolhidos e confortáveis com ela.
Na universidade, a representatividade também está se fortalecendo. João Victor Moraes, estudante de enfermagem na Universidade de Brasília, é uma voz ativa entre seus colegas. Ele enxerga sua presença na área da saúde como um símbolo de esperança. “Se eu consegui, outros também conseguem!”, afirma. João Victor se compromete a lutar contra a mortalidade materna, que afeta especialmente mulheres negras e indígenas, e vê o Dia da Consciência Negra como uma oportunidade de celebrar vitórias coletivas na luta por igualdade.
Essas trajetórias mostram que, embora existam desafios significativos, a presença de profissionais negros na saúde é fundamental para promover um sistema mais justo e inclusivo.