Os serviços de saúde mental na rede pública do Distrito Federal enfrentam sérios desafios. Apesar de serem bem avaliados pelos usuários, a demanda por atendimento tem crescido, e a cobertura para a população ainda é insuficiente. Essa situação é apontada por dados do governo, relatos de pacientes e a visão de profissionais da área.
A Secretaria de Saúde (SES-DF) reconheceu os problemas e afirmou que a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) está em processo de expansão, especialmente em regiões com maior vulnerabilidade social. Para isso, a pasta solicitou a inclusão, no orçamento de 2026, da construção e ampliação de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) em localidades como Paranoá, Itapoã, São Sebastião, Jardim Botânico e Jardins Mangueiral.
Atualmente, a rede pública conta com 18 CAPS. Estes serviços funcionam em regime de portas abertas, mas não conseguem atender adequadamente a demanda crescente, que já registrou mais de 200 mil atendimentos no primeiro semestre deste ano, um aumento de 11,1% em relação ao mesmo período do ano anterior.
O tempo de espera para uma consulta especializada em psicologia chegou a 270 dias, cerca de oito meses, de acordo com dados do Ministério Público do DF. Na fila de espera, há 3.763 pessoas aguardando atendimento. Para consultas em psiquiatria, o número pula para mais de 10 mil registros. No total, a rede conta atualmente com 288 psicólogos e 118 médicos psiquiatras.
Desde a aprovação da Lei nº 975 em 1995, que começou a substituir leitos psiquiátricos por serviços comunitários, houve pouco investimento em saúde mental, segundo especialistas. Filipe Willadino, psicólogo do CAPS II do Paranoá, observa que as gestões anteriores priorizaram internações hospitalares, o que agravou a situação atual.
Em 2024, o Distrito Federal tinha a segunda menor cobertura de CAPS do país, com apenas 0,54 unidades para cada 100 mil habitantes, atrás apenas do Amazonas. A média nacional é de 1,13. Embora os CAPS atendam sem agendamento, a localização ainda é uma questão. A SES informou que há obras em andamento para a construção de dois novos CAPS, um voltado para crianças e adolescentes e outro que funcionará 24 horas.
Willadino destaca que a expansão da RAPS é essencial, mas deve ser integrada. A comunicação entre CAPS e unidades de atendimento primário é fundamental. Ele defende que o atendimento à saúde mental deve ser constante e próximo à comunidade, e não limitado a consultas pontuais.
Pacientes atendidos nos CAPS relatam experiências positivas. No CAPS II do Riacho Fundo, por exemplo, frequentadores descreveram o local como um “segundo lar”. José, um paciente com Transtorno do Espectro Autista (TEA), afirmou que o espaço é acolhedor e promovedor de confiança entre os usuários.
Mariana, outra paciente, compartilhou sua experiência positiva no CAPS II de Taguatinga, onde passa por tratamento para depressão e ansiedade. Ela elogiou a equipe profissional e disse que seu tratamento a ajudou a evitar graves problemas pessoais.
Por outro lado, profissionais de CAPS enfrentam dificuldades estruturais e falta de pessoal. Um enfermeiro em um CAPS mencionou a escassez de recursos e a luta diária para atender todos os pacientes. Emoções intensas também são comuns, principalmente porque muitos que necessitam de cuidados ainda não buscam atendimento.
A psiquiatra Clara Nunes, que atua no CAPS AD de Ceilândia, enfatiza a importância de treinar e qualificar os serviços existentes antes de pensar em uma expansão. Para ela, a defesa da saúde mental deve ser uma prioridade.
É urgente que o Distrito Federal reorganize sua política de saúde mental de forma a garantir atendimento de qualidade para todos, mantendo foco na capacitação das equipes e na construção de uma rede robusta. Com isso, espera-se que mais pessoas tenham acesso a tratamentos adequados e humanos.