Aprender a voar é um dos marcos mais notáveis na evolução dos seres vivos. Um recente estudo realizado por pesquisadores brasileiros revelou que o processo que levou ao voo nas aves foi diferente daquele que permitiu aos pterossauros, apesar de algumas semelhanças entre os dois grupos.
O estudo foca na evolução do cérebro dessas espécies. Além das aves e pterossauros, somente os morcegos, entre os vertebrados, desenvolveram o que os cientistas chamam de “voo verdadeiro”, em que o animal se mantém no ar com suas próprias forças, ao invés de apenas planar.
Apesar de muitas das espécies analisadas já terem desaparecido há mais de 66 milhões de anos, no final da Era dos Dinossauros, os pesquisadores utilizaram técnicas avançadas, como tomografia computadorizada, para criar moldes virtuais das regiões do cérebro desses animais extintos. Isso possibilitou comparações com as aves modernas.
O artigo foi publicado na revista Current Biology, com Mario Bronzati, brasileiro da Universidade de Tübingen, na Alemanha, como autor principal. Ele contou com a colaboração de Max Langer, da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto, e Rodrigo Müller, da Universidade Federal de Santa Maria (RS), entre outros.
Tanto as aves quanto os pterossauros pertencem ao grupo maior de répteis conhecido como Avemetatarsalia, que inclui todos os dinossauros. As aves modernas são na verdade um subgrupo de dinossauros carnívoros pequenos, e seus ancestrais eram répteis de tamanho pequeno que viveram durante o Triássico, há cerca de 240 milhões de anos.
Fósseis primitivos desses grupos, como o Ixalerpeton polesinensis, encontrado no Brasil, mostram características que lembram formas ancestrais dos pterossauros, apesar de não possuírem asas. O cérebro do I. polesinensis se assemelha ao de dinossauros primitivos, mas apresenta um aumento na área do lobo óptico, que está ligado à visão. Esse aumento pode estar relacionado à necessidade de se movimentar em ambientes arraigados nas árvores, o que, ao longo dos anos, pode ter facilitado a navegação durante o voo.
Além disso, tanto pterossauros quanto aves apresentam uma diminuição em áreas do cérebro que estão ligadas ao olfato, destacando a importância da visão para ambos os grupos. Nas aves, esse processo resulta em um cérebro relativamente grande em relação ao corpo, o que pode estar associado a um aumento nas capacidades cognitivas. Por outro lado, os pterossauros mantiveram um cérebro de tamanho modesto ao longo de sua evolução.
Apesar das semelhanças, as diferenças entre aves e pterossauros são significativas. O cérebro de muitos pterossauros, como o Anhanguera santanae, se assemelha ao das aves, mas a evolução dos dois grupos se deu de maneiras distintas. A estrutura cerebral da maioria dos pterossauros lembra a de pequenos dinossauros que não são aves, e a evolução do cérebro deles apresenta mudanças rápidas exatamente no período em que começaram a voar.
Nas aves, quando seus ancestrais ganharam a habilidade de voar, seus cérebros ainda eram parecidos com os de outros dinossauros carnívoros da época. As mudanças que definiriam o cérebro das aves modernas apareceriam dezenas de milhões de anos depois, já quando os dinossauros não avianos haviam desaparecido. Portanto, muitos dos desenvolvimentos cerebrais nas aves não estão diretamente ligados ao voo, ao contrário do que ocorreu com os pterossauros.