09/02/2026
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Cientistas identificam 162 patógenos de mamíferos no Brasil

Pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), ligado à Fiocruz, realizaram um estudo abrangente que identificou 1.025 microrganismos em 345 espécies de mamíferos no país. Dentre esses microrganismos, 162 são patógenos, como vírus, bactérias, protozoários, vermes e fungos, que podem ser transmitidos aos seres humanos. Os resultados do estudo ressaltam a necessidade de proteger a biodiversidade, evitando a transferência desses agentes patogênicos para a população.

Esse levantamento é considerado o mais completo sobre a saúde de animais silvestres no país e integra o projeto de pesquisa Redes Socioecológicas, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) dentro do programa de Síntese em Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (SinBiose).

O estudo traz à tona a ideia de “uma só saúde”, um conceito que relaciona a saúde ambiental, animal e humana, mostrando a interdependência entre elas. Essa abordagem integrada é essencial para entender e enfrentar novos desafios, como pandemias e a resistência a medicamentos.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA), cerca de 60% dos patógenos que causam doenças emergentes em seres humanos são zoonoses, que são doenças transmitidas de animais para humanos. Exemplos incluem HIV, gripe suína, gripe aviária, Ebola, mpox e Covid-19.

O chefe substituto do Laboratório de Biologia e Parasitologia de Mamíferos Silvestres Reservatórios do IOC, Paulo D’Andréa, destacou que a pandemia de Covid-19, originada em um vírus encontrado em morcegos, evidenciou como fatores ecológicos e mudanças ambientais podem facilitar a transmissão de patógenos de animais para humanos. Ele enfatizou a importância de entender quais parasitas estão presentes em animais silvestres, já que o Brasil abriga a maior diversidade de mamíferos do mundo e enfrenta transformações ambientais significativas.

D’Andréa também observou que atividades humanas, como desmatamento e mineração, contribuem para a perda de biodiversidade e podem aumentar a disseminação de doenças infecciosas. Os dados gerados pelo estudo ajudam a prever riscos e podem guiar a formulação de políticas públicas mais eficazes.

O relatório mostra que a degradação da vegetação em áreas remotas ricas em mamíferos está ligada ao aumento de doenças zoonóticas. Em contrapartida, um incremento na arborização urbana e na cobertura vegetal pode reduzir esse risco.

Os autores do relatório argumentam que a variedade de espécies ajuda a limitar a rápida disseminação de patógenos, tornando a conservação da biodiversidade crucial para a saúde dos ecossistemas e para controlar naturalmente o surgimento de doenças.

Elaborado por 24 autores de 13 instituições, o estudo reuniu conhecimento de várias entidades, incluindo a Fiocruz de regiões específicas, o Ministério da Saúde e universidades, entre outras.

Os dados foram coletados de artigos científicos e registros de instituições como o Sistema Único de Saúde (SUS) e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apesar de ser o estudo mais abrangente sobre saúde silvestre no país, os pesquisadores apontam uma lacuna de informações, pois a maior parte dos dados se concentra na região Sudeste. Eles também afirmam que o tema é frequentemente negligenciado pelas autoridades.

Atualmente, não existe uma legislação específica ou órgão nacional que aborde de maneira integral a saúde dos animais silvestres no país. As políticas existentes costumam focar na saúde dos rebanhos de produção e na prevenção de surtos entre humanos, sem considerar os animais silvestres.

No ano passado, o governo brasileiro estabeleceu o ‘Comitê Interinstitucional de Uma Só Saúde’, uma iniciativa que, segundo os pesquisadores, representa um progresso para enfrentar essa situação. O grupo, coordenado pelo Ministério da Saúde e formado por 20 órgãos, tem a tarefa de desenvolver uma política nacional sobre a questão.

Entre as recomendações dos autores do relatório, destacam-se a necessidade de aprimorar a vigilância da saúde silvestre, integrá-la em planos de conservação, regulamentar o comércio de animais silvestres e incentivar a participação da sociedade, especialmente de comunidades tradicionais e indígenas, na definição de estratégias para a saúde ambiental e animal.

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