Propostas para Integrar Inovação Tecnológica à Saúde e Segurança no Trabalho
Durante o Congresso da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), que ocorreu de 1 a 4 de outubro em Goiânia (GO), especialistas e líderes do setor se reuniram para discutir o impacto da inteligência artificial (IA) na saúde e segurança do trabalho (SST). O painel, organizado pela Associação de Gestão de Segurança e Saúde Ocupacional (AGSSO), contou com a participação de Antonio Martin, presidente da AGSSO, e Dr. Paulo Zaia, médico do trabalho e pesquisador na área.
Os palestrantes abordaram os desafios, riscos e oportunidades que a transformação digital traz para o setor. Eles destacaram que o Brasil ainda está nos primeiros passos em direção à digitalização da SST. Entre os principais problemas mencionados estão a alta taxa de subnotificação de acidentes, a realização de exames ocupacionais sem critérios técnicos adequados, processos manuais e desconectados, e o baixo aproveitamento dos dados já coletados.
Uma participante do painel compartilhou sua experiência ao realizar um exame ocupacional em uma clínica no Rio de Janeiro, onde enfrentou um longo tempo de espera e um atendimento que deixou a desejar. Isso evidenciou a necessidade urgente de melhorias na prestação desses serviços.
Apesar dos desafios, os especialistas afirmaram que este é um momento oportuno para a inclusão de tecnologias preditivas na SST. Prontuários eletrônicos e sistemas de gestão já estão se tornando comuns em diversas empresas. A pressão por produtividade, sempre com foco na segurança dos trabalhadores, é crescente, e ferramentas de IA estão mais acessíveis do que nunca.
Antonio Martin observou que o Brasil ainda enfrenta muitos obstáculos em seu caminho rumo à transformação digital na SST. Dr. Paulo Zaia acrescentou que a IA pode ser um recurso valioso, transformando dados em informações úteis para prever riscos e treinar equipes, representando os primeiros passos de uma evolução que pode impactar o setor.
No entanto, ambos os especialistas alertaram sobre os riscos de uma implementação descuidada da IA. Esses riscos incluem a possibilidade de viés algorítmico – onde preconceitos podem ser reproduzidos por algoritmos –, a vulnerabilidade dos dados médicos, que podem ser expostos em vazamentos, e a vigilância excessiva, que pode causar estresse e resistência entre os trabalhadores.
Eles também apontaram que o Brasil ainda precisa de diretrizes claras, ambientes de teste seguros (sandboxes) e uma integração eficiente entre órgãos reguladores, como o Conselho Federal de Medicina (CFM), a Agência Nacional de Saúde Complementar (ANS) e o Ministério do Trabalho.
O painel também trouxe exemplos internacionais de uso responsável da IA em SST. Nos EUA, há sistemas de visão computacional que detectam Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) em tempo real. Já na Europa, a IA em SST é classificada como de “alto risco” na regulação; na China, sensores ambientais são usados para mineração inteligente, e no Japão, os trabalhadores mais velhos são monitorados através de dispositivos wearables.
Inspirada por essas iniciativas internacionais e pelo sucesso de projetos como o Pix, a AGSSO propôs a criação de um Sandbox Regulatório para SST. Essa proposta visa criar um ambiente controlado onde novas tecnologias possam ser testadas com segurança, alinhando inovação e responsabilidade.
O Sandbox tem como objetivos oferecer um espaço supervisionado para testes, promover a avaliação contínua da eficácia e segurança das tecnologias, garantir a certificação de sistemas de IA com padrões éticos e técnicos, e proporcionar educação continuada para os profissionais de saúde do trabalho.
Essa abordagem busca assegurar que a inovação tecnológica trabalhe a favor da saúde e da dignidade dos trabalhadores, promovendo um ambiente de trabalho mais seguro e eficaz.