06/02/2026
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Especialistas propõem reforma dos sistemas de saúde na Amazônia

Reformulação dos Sistemas de Saúde na Amazônia Diante das Mudanças Climáticas

Pesquisadores apontam a necessidade de reformular os sistemas de saúde na Amazônia em resposta às mudanças climáticas, eventos extremos e insegurança alimentar. Essa discussão foi destacada em um artigo de opinião publicado na revista British Medical Journal, no qual a equipe multidisciplinar, composta por acadêmicos de várias instituições, sugere integrar know-how local e saberes tradicionais nas políticas de saúde.

Com a realização da COP30 na Amazônia e a elaboração de um plano nacional de saúde e clima pelo Ministério da Saúde, os especialistas acreditam ser o momento apropriado para repensar o Sistema Único de Saúde (SUS) na região. Eles defendem a criação de indicadores que levem em conta as particularidades amazônicas e que valorizem práticas adaptadas ao território.

Gabriela Di Giulio, professora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo e uma das autoras do artigo, destaca que a saúde pública começou a se envolver com os problemas relacionados às mudanças climáticas tardiamente. No entanto, de acordo com ela, o setor de saúde deve ser protagonista, visto que eventos climáticos extremos, como ondas de calor e enchentes, têm se intensificado.

Os pesquisadores enfatizam a importância de redesenhar a saúde pública na Amazônia a partir de uma perspectiva que considere a sustentabilidade. Entre as propostas está a ampliação da vigilância em saúde, incorporando conhecimentos indígenas e práticas locais sobre alimentação para combater a propagação de alimentos ultraprocessados. Um exemplo positivo já observado é o trabalho das parteiras, que utilizam tanto técnicas biomédicas quanto práticas tradicionais para fornecer atendimento em áreas remotas.

Os autores propõem um modelo de adaptação que reconhece a importância dos rios e florestas nesse contexto, assim como o papel dos povos tradicionais que detêm conhecimentos essenciais para a preservação e adaptação climática. Eles usam o conceito de “territórios fluidos” para descrever a dinâmica de transporte e acesso aos serviços de saúde na região, muitas vezes influenciada por condições climáticas como a seca. Nos últimos anos, comunidades inteiras enfrentaram isolamento devido à falta de acesso aos rios, essenciais para a locomoção.

A situação se agrava, pois a seca também traz um aumento de doenças transmissíveis e exacerba a insegurança alimentar. Di Giulio alerta que, se o modelo de desenvolvimento atual for mantido sem a implementação dos acordos climáticos, há risco para a diversidade biológica e social da região, que são fundamentais para minimizar os impactos das mudanças climáticas.

Os povos indígenas, segundo o artigo, têm uma visão holística da saúde, que abrange aspectos espirituais, sociais e ambientais. Eles enxergam doenças como manifestações de desequilíbrios provocados por interferências humanas na natureza. O artigo critica as políticas públicas que historicamente trataram a Amazônia como um espaço a ser explorado, negligenciando os direitos e a presença de comunidades autóctones, resultando em perda de biodiversidade e impactos na saúde mental e física das populações locais.

Além do artigo focado na saúde, os pesquisadores publicaram um dossiê que abrange outros três textos sobre mudanças climáticas e saúde. Um dos artigos examina como a liderança feminina indígena enfrentou a COVID-19 na região do Rio Negro e oferece lições para responder a emergências climáticas. Outro discute formas de governança socioambiental que podem ajudar na mitigação dos efeitos das mudanças climáticas. O quarto artigo aborda a imagem do Brasil ao sediar a COP30, considerando os desafios internos relacionados à exploração de recursos naturais e legislações que afetam o meio ambiente.

O dossiê busca dar voz às complexidades e especificidades das questões enfrentadas pelo Sul global, propondo um olhar decolonial que destaca a necessidade de se prestar atenção às singularidades regionais em debates globais.

O grupo de pesquisadores é composto por profissionais da Universidade de São Paulo, da Universidade de Brasília, da Universidade Federal do Amazonas, da Fiocruz Amazônia e da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca.

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