No dia 11 de dezembro, a Food and Drug Administration (FDA), a agência reguladora dos Estados Unidos, aprovou o uso doméstico do primeiro dispositivo de estimulação cerebral para tratar o Transtorno Depressivo Maior (TDM). O aparelho, conhecido como FL-100 ou Flow, é semelhante a um headset e, ao invés de tocar música, oferece uma terapia chamada Estimulação Transcraniana por Corrente Contínua (ETCC). Essa técnica é não invasiva e visa modular a atividade cerebral.
O dispositivo funciona enviando uma corrente elétrica baixa ao córtex pré-frontal dorsolateral, que é a área responsável pela regulação das emoções. Diferente dos antidepressivos tradicionais, que influenciam a química do cérebro, a ETCC tem como objetivo estimular a atividade neuronal, tornando o cérebro mais receptivo a experiências positivas e à psicoterapia. A corrente elétrica utilizada não provoca dor; a sensação relatada pelos usuários é de formigamento ou leve aquecimento na testa.
Fabricado pela empresa sueca Flow Neuroscience, o FL-100 representa uma nova alternativa ao tratamento da depressão, especialmente para aqueles que não respondem bem aos medicamentos. Tradicionalmente, a Estimulação Magnética Transcraniana (EMT), que envolve máquinas grandes e caras, é utilizada em clínicas, mas o FL-100 oferece uma solução que pode ser usada em casa.
A aprovação do dispositivo foi embasada em um estudo robusto publicado em outubro de 2024, que avaliou sua eficácia em ambientes domiciliares. Liderado pelo King’s College London, o estudo contou com a participação do pesquisador brasileiro Rodrigo Machado-Vieira, que atuou em um centro de ciências da saúde nos Estados Unidos.
Neste estudo, 174 adultos com depressão moderada a grave participaram de sessões de tratamento durante dez semanas. Divididos em grupos, alguns utilizaram o FL-100 enquanto outros receberam um tratamento placebo. Os resultados mostraram que quase 45% dos que usaram o aparelho tiveram remissão total dos sintomas, em contraste com 22% no grupo que recebeu o placebo.
Machado-Vieira destacou que o estudo demonstrou que a terapia é segura e eficaz, sugerindo que a terapia domiciliar pode facilitar o acesso ao tratamento para um número maior de pessoas. Com a aprovação do FL-100, o tratamento da depressão pode mudar, saindo do enfoque exclusivo em medicamentos para incluir abordagens que interagem diretamente com os circuitos cerebrais.
A popularização de dispositivos que modulam a atividade cerebral sem cirurgia e com menos efeitos colaterais é uma tendência crescente na medicina. A Dra. Karine Furlanetto, psiquiatra que trabalha com novas tecnologias, comenta que essa abordagem pode evitar problemas comuns com medicamentos, como ganho de peso e disfunção sexual, que muitas vezes levam os pacientes a desistirem do tratamento.
O FL-100 está previsto para ser lançado no mercado americano na primavera de 2026 e será indicado para adultos com 18 anos ou mais que sofrem de depressão moderada a grave. O uso do dispositivo será acompanhado por um aplicativo gratuito que orienta os usuários e monitora seu progresso, permitindo que os pacientes tenham um papel ativo em sua recuperação.
A primeira autora do estudo, Rachel Woodham, espera que a ETCC possa se tornar uma alternativa viável para pessoas com depressão. A Dra. Karine acredita que agências reguladoras como a Anvisa devem seguir o exemplo internacional, tornando a prescrição de dispositivos como o FL-100 tão comum quanto a de medicamentos.