Aumento de Doenças Mentais no Trabalho Acompanha Avanços Tecnológicos
Nos últimos anos, a popularidade da inteligência artificial (IA) se expandiu, prometendo automatizar tarefas repetitivas e permitir que os funcionários se concentrem em atividades mais estratégicas e criativas. Apesar das expectativas de aumento na produtividade, os resultados práticos têm sido diferentes. Um estudo global revelou que, enquanto 96% dos executivos acreditam que a IA deveria aumentar a produtividade, 77% dos trabalhadores sentem que a tecnologia, na realidade, tem aumentado sua carga de trabalho. Muitos enfrentam mais desafios para atingir as metas estabelecidas.
De acordo com um relatório de 2025, o uso de medicamentos para tratar ansiedade, estresse ou burnout entre líderes e colaboradores cresceu significativamente. Os dados mostram que 52% dos líderes e 59% dos colaboradores fazem uso dessas medicações, um aumento considerável em relação a 2024, quando os números eram de 18% e 21%, respectivamente. Além disso, outro relatório indicou que o absenteísmo no trabalho atingiu seu nível mais alto em uma década.
Esse cenário revela uma contradição: com a maior disponibilidade de ferramentas digitais, o número de pessoas adoecidas e exaustas tem aumentado. A cultura de estar constantemente disponível está colidindo com os limites humanos. Helyn Thami, CEO da HT Consultoria, afirma que a sobrecarga de trabalho eleva a taxa de erros e reduz a capacidade de aprender e inovar.
Ela observa que as empresas ampliaram suas capacidades digitais, mas deixaram de lado hábitos de gestão que desperdiçam energia e saúde dos colaboradores. Muitas adoções de tecnologia são feitas à custa do bem-estar dos funcionários, resultando em demandas excessivas que podem prejudicar a qualidade do trabalho.
Um estudo da Upwork também aponta que 47% dos colaboradores que utilizam IA não sabem como atender às expectativas de produtividade, enquanto 40% consideram as demandas impossíveis. Essa desarmonia entre o que é esperado e a realidade já afeta a retenção de talentos: um em cada três funcionários em tempo integral está considerando deixar seus empregos devido ao burnout.
Adicionalmente, 81% dos líderes reconhecem que aumentaram as demandas sobre suas equipes e 71% dos trabalhadores mostram sinais de esgotamento. Além disso, 65% relatam dificuldades para cumprir as metas estabelecidas.
Para resolver essa situação, Thami sugere uma análise profunda do fluxo de trabalho e a aplicação de tecnologias que beneficiem as pessoas, evitando a burocratização desnecessária. Ela enfatiza a importância de medir o bem-estar dos colaboradores de forma eficaz e integrada, pois a maioria das empresas ainda opera com métodos isolados e desarticulados.
Embora muitas empresas reconheçam a pressão por produtividade e os riscos à saúde mental, a maioria ainda adota abordagens pontuais para resolver esses problemas, sem uma estratégia abrangente. Isso se torna ainda mais complicado em um cenário de constante transformação digital.
Uma nova regulamentação, que entrará em vigor em 2026, pode representar um avanço nesse cenário. A Norma Regulamentadora 1 (NR-1) exigirá que as empresas incluam a avaliação de riscos psicossociais em sua gestão de segurança e saúde no trabalho. As empresas deverão identificar e gerenciar esses riscos, implementando ações para reorganizar o trabalho, melhorar a qualidade de vida e promover um ambiente saudável.
A norma também requer que as empresas documentem suas ações e realizem avaliações regulares, com o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) realizando fiscalizações em setores com alta incidência de doenças mentais, como teleatendimento e saúde.
A CEO da HT Consultoria ressalta sua expectativa positiva em relação à fiscalização da NR-1, que poderá gerar resultados significativos, pois se concentra não apenas nas consequências, mas também nos riscos, buscando uma abordagem mais integrada nas políticas de saúde corporativa.