05/02/2026
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Inteligência artificial e seu impacto na produtividade e saúde mental

O uso crescente da inteligência artificial (IA) no ambiente corporativo promete transformar o trabalho, automatizando tarefas repetitivas e aumentando a produtividade. Entretanto, um estudo do UpWork Research Institute, divulgado em setembro, revela que essa expectativa nem sempre é correspondida. Enquanto 96% dos executivos acreditam que a IA poderá melhorar a produtividade, 77% dos funcionários relatam que, na prática, a tecnologia tem aumentado sua carga de trabalho e trazido novos desafios para alcançar resultados.

Ainda mais preocupante, um relatório desenvolvido pela Robert Half e pela School of Life mostra um aumento no uso de medicamentos psicofarmacológicos entre líderes e colaboradores. Em agosto de 2025, 52% dos líderes e 59% dos funcionários em cargos de liderança relataram o uso de medicações para lidar com ansiedade, estresse ou burnout. Em 2024, esses números eram significativamente mais baixos, a apenas 18% e 21%, respectivamente. Além disso, o relatório do Chartered Institute of Personnel and Development (CIPD) indica que o absentismo no trabalho atingiu seu ponto mais alto em dez anos.

Esse cenário revela um paradoxo: temos mais ferramentas e plataformas de trabalho, mas muitas pessoas estão se sentindo sobrecarregadas e adoecidas. A pressão por uma disponibilidade constante em ambientes corporativos está gerando limites para a saúde mental dos colaboradores.

Segundo Helyn Thami, CEO da HT Consultoria, a sobrecarga dos sistemas humanos resulta em um aumento nos erros e na diminuição da capacidade de aprendizado e inovação. Em vez de adaptar as tecnologias para o bem-estar dos trabalhadores, muitas organizações têm imposto demandas que superam a capacidade humana, levando a entregas de qualidade inferior.

Pesquisa da Upwork indica que 47% dos colaboradores que utilizam IA não têm clareza sobre como atingir as metas de produtividade requeridas pelos empregadores, e 40% sentem que as exigências são excessivas. Esse desnível entre as expectativas das empresas e a realidade vivida pelos funcionários já está impactando a retenção de talentos, com um em cada três funcionários em tempo integral afirmando considerar deixar o emprego nos próximos seis meses devido à sobrecarga e ao burnout.

O estudo também ressalta que 81% dos líderes de alto escalão reconhecem ter aumentado as demandas sobre suas equipes no último ano. Como resultado, 71% dos trabalhadores em tempo integral apresentam sinais de esgotamento, e 65% relatam dificuldades para cumprir as metas estabelecidas.

Helyn Thami destaca a importância de compreender o fluxo de trabalho e diagnosticar adequadamente os problemas, implementando tecnologias que ajudem as pessoas em vez de criar mais burocracia. Ela ressalta que muitas empresas brasileiras estão cientes da pressão por produtividade e da necessidade de abordar os riscos à saúde mental, mas ainda adotam uma abordagem pontual.

O quadro se complica pela falta de preparo de muitos líderes atuais para tratar de temas relacionados à saúde mental em um contexto cada vez mais digital e desafiador.

Uma boa notícia é a nova Norma Regulamentadora (NR-1), que entrará em vigor em 2026. Essa norma obrigará as empresas a avaliar os riscos psicossociais em seus processos de Gestão de Segurança e Saúde no Trabalho (SST). As organizações precisarão identificar esses riscos e implementar planos de ação para melhorar a qualidade de vida dos colaboradores, reorganizando o trabalho e promovendo um ambiente saudável.

A norma requer também documentação detalhada e avaliações regulares para garantir que as empresas estejam em conformidade. O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) realizará fiscalizações em setores com alta incidência de doenças mentais, como teleatendimento, instituições financeiras e serviços de saúde, analisando a organização do trabalho e dados de afastamentos.

Helyn Thami acredita que a fiscalização da NR-1 pode trazer resultados significativos, já que a norma aborda não apenas as consequências, mas também os riscos associados ao trabalho. Ela sugere que isso pode ajudar a integrar programas de bem-estar que, atualmente, são frequentemente tratados de forma isolada, garantindo uma abordagem mais eficaz e contínua para a saúde dos colaboradores.

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