Janeiro Branco e a Saúde Mental no Mercado de Trabalho no Ceará
O início do ano traz a expectativa de recomeço, mas para muitas pessoas no Ceará, isso pode ser mais um desafio do que uma mudança. Após as festas de fim de ano, retornar ao trabalho muitas vezes significa enfrentar o mesmo peso emocional e físico, semelhante ao que se sente numa segunda-feira. Essa realidade leva à reflexão sobre a saúde mental, especialmente com a campanha Janeiro Branco, que visa promover o bem-estar emocional.
Essa campanha não se resume a um mês do ano, mas propõe uma análise constante do que enfrenta a sociedade, marcada pela pressão cotidiana por produtividade e pela expectativa de resultados que, muitas vezes, desconsideram os limites humanos. No Ceará, os dados mostram um cenário preocupante: o número de afastamentos por transtornos mentais e comportamentais aumentou mais de 128% nos últimos cinco anos.
De acordo com informações do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), os benefícios concedidos para incapacidade temporária por motivos relacionados à saúde mental saltaram de 5.754 em 2021 para 13.170 em 2024. Entre os afastamentos, 647 foram relacionados a acidentes de trabalho, e em 2025, nos primeiros seis meses, já havia 6.819 afastamentos, mostrando que a tendência de crescimento se mantém.
As mulheres representam uma parcela significativa desses dados, acumulando cerca de 60% dos casos desde 2021. Apenas em 2024, foram 8.080 mulheres afastadas, em comparação com 5.090 homens. Os principais motivos incluem episódios depressivos e transtornos de ansiedade. Entre 2021 e 2025, foram registrados quase 19 mil casos somando essas duas categorias.
As denúncias de violência e assédio psicológico no trabalho também estão em ascensão. Em 2025, houve um aumento de 23% nas queixas em relação ao ano anterior, com 488 autuações relacionadas a esses problemas. Muitas vezes, pessoas não denunciam por falta de conhecimento sobre os canais disponíveis.
O MPT-CE (Ministério Público do Trabalho do Ceará) alerta que o aumento nos casos de adoecimento mental não se trata apenas de uma questão individual, mas indica que o ambiente de trabalho pode estar causando essa situação. Para resolver isso, o órgão utiliza um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) que exige mudanças na cultura empresarial, incluindo a identificação de riscos psicossociais e a implementação de canais de denúncia.
Setores como o bancário estão entre os mais afetados, com 232 registros de afastamentos relacionados à saúde mental de 2020 a 2024. Um dos desafios enfrentados durante investigações é a dificuldade em provar danos psicológicos, que frequentemente são invisíveis.
A campanha Janeiro Branco surge como uma oportunidade para que as empresas reavaliem suas práticas de gestão. A nova Norma Regulamentadora (NR-1) já exige o gerenciamento de riscos, tornando a saúde mental uma questão não apenas ética, mas legal.
As psicólogas que analisam os dados observam que o aumento nos afastamentos reflete desigualdades sociais e ambientes de trabalho que desconsideram a experiência humana. Elas destacam que o limite entre o estresse e o adoecimento mental é muito tênue. O estresse constante e a “angústia do domingo” são sinais de que o trabalho está impactando a vida pessoal, gerando preocupação com o sono e as relações sociais.
Para as mulheres, a pressão é ainda maior, pois muitas acumulam funções de mãe, esposa e cuidadora, enquanto enfrentam salários menores e risco de assédio. Os homens, por outro lado, muitas vezes não buscam ajuda devido a um estigma associado a demonstrar vulnerabilidade emocional.
O racismo estrutural também impacta a saúde mental no ambiente de trabalho, criando tensões adicionais para pessoas negras, que frequentemente enfrentam discriminação. A discussão sobre saúde mental nas empresas precisa incluir medidas que garantam um ambiente de trabalho saudável e respeitoso.
Relatos de profissionais que enfrentaram problemas de saúde mental mostram a urgência de se abordar essa questão de forma mais ampla. Um exemplo é a experiência da professora aposentada Adriana Lucas, que após 25 anos na educação, enfrentou esgotamento emocional e físico. Ela relata a pressão constante sobre os educadores e a falta de apoio na profissão.
Suas experiências, assim como as de muitas outras, mostram que campanhas como Janeiro Branco não devem ser meras datas no calendário, mas sim um chamado para que as organizações implementem práticas reais que promovam a saúde mental. A conscientização e a mudança no ambiente de trabalho são fundamentais para garantir o bem-estar de todos os trabalhadores.