07/02/2026
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O mundo deve US$ 111 trilhões. A quem estamos devendo?

Principais Fatos

• A dívida global alcançou US$ 113 trilhões, equivalente a aproximadamente 94,7% do PIB global em 2025.
• A maior parte dessa dívida está concentrada em poucos países, com os EUA e a China detendo mais de 50% da dívida pública mundial.
• O Japão continua sendo a economia mais endividada, com uma dívida de 230% do PIB.

Em 2025, o mundo está, basicamente, vivendo de uma grana emprestada. A dívida global subiu a um patamar que muitos economistas consideravam impossível há apenas dez anos. Hoje, os governos têm, juntos, uma dívida pública de US$ 111 trilhões. Esse montante é US$ 8 trilhões a mais que o do ano passado e se aproxima dos níveis máximos vistos na pandemia.

Os números são altos, mas a essência da história é simples: a dívida virou um suporte essencial para as economias no mundo, mas seu peso está ficando difícil de carregar.

O que realmente preocupa os especialistas não é apenas o tamanho da dívida, mas a velocidade com que ela está aumentando.

A Crise Acelerada da Dívida

Os governos estão pegando dinheiro emprestado mais rápido do que conseguem crescer. Segundo o FMI, a dívida de US$ 111 trilhões representa cerca de 94,7% do PIB global em 2025. E as previsões indicam que a dívida pública mundial pode ultrapassar 100% do PIB até 2029, um patamar que não é visto desde depois da Segunda Guerra Mundial.

Essa realidade alarmante apontada por fontes confiáveis revela que a dívida cresce para níveis históricos, mesmo antes de uma nova crise global surgir.

O motivo dessa dependência da dívida é que se tornou o jeito mais fácil de resolver problemas difíceis. A grana emprestada pagou lockdowns, auxílios emergenciais, guerras, promessas eleitorais e todo tipo de emergência.

Os governos pegam dinheiro emprestado de fundos de pensão, bancos, investidores estrangeiros e até de seus próprios cidadãos. De certa forma, a dívida de um país é a poupança de outro, fazendo o sistema funcionar, mas dificultando mudanças.

O problema é que a dívida não é uma solução a longo prazo para o crescimento e, à medida que a crise vai se intensificando, surge um claro desafio: quanto mais um governo paga para honrar dívidas antigas, menos sobra para novas investimentos. Isso leva a atrasos em projetos de infraestrutura, enfraquece a educação e sobrecarrega os orçamentos de saúde.

Com menos recursos disponíveis após o pagamento da dívida, os governos precisam pegar mais emprestado para atender necessidades sociais, desenvolver infraestrutura e enfrentar a vulnerabilidade climática. É um ciclo vicioso.

O mundo está se endividando apenas para ficar na mesma, e a pressão já está visível em todos os setores da economia.

Os Catalisadores do Aumento da Dívida

Embora as raízes do endividamento sejam profundas, nos últimos cinco anos, duas razões se destacam: o aumento das despesas com juros e o crescimento global mais fraco.

As taxas de juros estão subindo após anos de custos de empréstimos quase nulos, alterando a matemática financeira para os governos. Muitas nações que estão renovando dívidas estão vendo suas despesas com juros crescerem rapidamente.

O FMI alerta que várias países já estão gastando até 60% de suas receitas totais só para pagar juros, uma proporção historicamente ligada a estresse fiscal severo e crises financeiras.

Enquanto isso, a desaceleração da economia mundial está dificultando a arrecadação de receitas. Economias principais diminuíram seu ritmo devido a altas taxas de juros, o custo de vida que prejudica o consumo, e cadeias de suprimento que não se normalizaram completamente.

(seguido de fatores como choques climáticos e insegurança alimentar, a previsão de crescimento global pelo FMI é de apenas 3% nos próximos cinco anos, bem abaixo da média histórica de 3,8%).

As trocas comerciais não estão ajudando. De acordo com o FMI e a OMC, o volume do comércio global está expandindo a um ritmo de apenas 1%, o mais lento fora de uma recessão. Isso se deve também a tensões geopolíticas entre os EUA e a China.

Essa desaceleração criou um ciclo: crescimento fraco reduz receitas, a falta de receitas aumenta a dívida, dívidas altas elevam as despesas com juros, e isso, por sua vez, desacelera ainda mais o crescimento, deixando os países presos em um loop frágil.

A Iminência da Dívida e Seus Motivos

Especialistas têm uma visão clara: não tem como escapar de um ambiente de dívida alta. A dívida não vai desaparecer; ela agora faz parte do funcionamento das economias.

Cada época econômica tem suas razões para a tomada de crédito, e hoje, os motivos se acumulam, deixando poucos caminhos para os governos.

Em economias avançadas, os principais fatores são os custos demográficos: populações envelhecendo rapidamente fazem com que os governos precisem emprestar muito para financiar aposentadorias e saúde, consumindo uma boa parte do que se espera em crescimento de despesas públicas.

Além disso, os gastos com defesa global aumentaram mais do que nunca desde os anos 90, impulsionados por conflitos armados e tensões geopolíticas, obrigando os governos a aumentar seus orçamentos de defesa, muitas vezes com dívida.

Questões climáticas também acrescentam mais um fardo. Eventos extremos como secas e tempestades forçam os países a gastar emergencialmente e a se adaptar, e a ONU já alertou que essas pressões estão drenando os orçamentos mais rapidamente do que se imaginava.

Emergências humanitárias e crises de saúde pública, como a pandemia de COVID-19, são também preocupações sérias. Esses choques inesperados exigem gastos altos e rápidos, resultando em novos empréstimos.

Países em desenvolvimento também enfrentam desafios específicos, pegando empréstimos pesados para desenvolver infraestrutura fundamental, o que é uma despesa necessária, mas geralmente feita com financiamento externo. Esses países lidam também com riscos de preços voláteis de commodities e flutuações cambiais que podem aumentar rapidamente a dívida.

Infelizmente, em muitos mercados emergentes, a má governança e a corrupção dificultam mais a situação, com gastos públicos ineficientes e sistemas de arrecadação fracos.

Economias avançadas e emergentes pegam dinheiro emprestado por diferentes razões, mas ambas estão atreladas a um futuro marcado por altas dívidas estruturais.

A Distribuição e Estrutura da Dívida Global

Apesar de estarmos rodeados por dívidas, elas não estão distribuídas igualmente. As obrigações do mundo estão muito concentradas em poucos países, e essa concentração molda a estabilidade financeira do sistema global.

Dados mostram que os Estados Unidos sozinhos representam 34,5% da dívida pública global. A China fielmente ocupa a segunda posição com 16,8%, totalizando mais da metade (51,3%) da dívida do mundo.

Os EUA lideram com impressionantes US$ 38,3 trilhões, que equivale a 125% do seu PIB. O mercado de dívida norte-americano, apoiado em títulos do Tesouro, é considerado o ativo mais seguro do mundo, permitindo a Washington uma capacidade de endividamento que nenhum outro país possui. Contudo, essa vantagem também tem limites.

Nos últimos cinco anos, os pagamentos de juros cresceram quase três vezes e prevê-se que, em 2035, os EUA gastem US$ 1,8 trilhões por ano apenas com juros. A China, por sua vez, possui uma dívida de US$ 18,7 trilhões, que aumentou em quase US$ 2,2 trilhões só em 2025, devido a investimentos liderados pelo Estado, gastos com estímulo e a queda da receita do mercado imobiliário.

Logo depois vem o Japão, com US$ 9,8 trilhões de dívida pública, correspondente a 230% do seu PIB. Apesar dessa situação, o novo governo japonês anunciou um estímulo de mais de US$ 92 bilhões, e o mercado não parece preocupado, com as ações japonesas alcançando máximos históricos.

No campo dos grandes países, Reino Unido e França têm cerca de US$ 4 trilhões cada. A França, especialmente, está enfrentando instabilidade política, com cinco primeiros-ministros em dois anos, em disputas sobre cortes de gastos.

Por outro lado, existem países cuja dívida é quase irrelevante no cenário global, não porque sejam fiscalmente prudentes, mas porque suas economias são pequenas ou seus mercados de títulos são finos. Nações como Tuvalu, Nauru e Kiribati têm dívidas na casa dos milhões.

Portanto, sim, o sistema de dívidas global é desproporcional. Um pequeno grupo de economias sustenta os mercados de capitais globais, e suas decisões de endividamento afetam taxas de juros, fluxos de moeda e as condições financeiras muito além de suas fronteiras.

Por isso, a estrutura da dívida é tão importante quanto seu tamanho. Analistas ressaltam duas perguntas cruciais: quem detém a dívida de um país? E em que moeda ela está emitida?

Economias desenvolvidas normalmente tomam empréstimos em suas próprias moedas e de instituições locais, o que lhes dá resiliência. O Japão é um bom exemplo: possui uma enorme dívida, mas risco de calote baixo devido ao fato de que as obrigações estão dentro do país.

Economias emergentes, por outro lado, têm uma dinâmica diferente; muitos emitem dívida em dólares ou euros, o que significa que as variações de taxa de mudança podem rapidamente aumentar sua carga financeira. A desvalorização da moeda local pode tornar o pagamento mais caro, mesmo sem pegar novos empréstimos.

Essa diferença simples traz consequências profundas para a sustentabilidade da dívida e seu impacto na economia.

Proporção da Dívida

Embora os números absolutos da dívida indiquem sua magnitude, a relação da dívida com o PIB pinta um quadro diferente.

Assim, em 2025, o Japão continua sendo a maior economia endivida do mundo, com uma relação de 230% do PIB. O Sudão vem logo atrás, com 222%, devido a estações de guerra e colapso econômico. Singapura aparece em 176%, em função de um endividamento estratégico para programas de investimento.

Venezuela e Líbano também são países com números acima de 160%, reflexo de longos anos de crises, enquanto os EUA ocupam a 11ª posição, com 125%.

Por fim, 23 países já devem mais do que toda a sua produção econômica anual. Dois devem mais do que o dobro. De maneira geral, mais de 3,4 bilhões de pessoas vivem em países onde os governos gastam mais com juros do que com saúde ou educação, de acordo com análises de entidades reconhecidas.

Contudo, altos índices de endividamento não são, necessariamente, um sinal de perigo iminente. O Japão, com 229,6% do PIB na mão, demonstra que se emprestar em sua própria moeda para instituições locais pode sustentar altos índices por décadas. Por outro lado, países com dívidas mais modestas, especialmente os que pegam dinheiro emprestado de fora, tendem a ser muito mais vulneráveis.

O custo real da dívida não é o número em si, mas as oportunidades perdidas quando os pagamentos de juros bloqueiam investimentos.

Previsões do FMI indicam que os índices de dívida continuarão subindo nesta década, especialmente em potências como EUA, China e Japão.

Por enquanto, os mercados estão tranquilos. Os investidores ainda veem a dívida pública como algo seguro, porém essa calma depende da confiança de que os governos sempre poderão arcar com os compromissos.

O Impacto na Economia e na Sua Vida

Os especialistas já concluíram que não dá para escapar de um ambiente de dívidas altas, mas, se não for gerido adequadamente, isso pode ter consequências diretas no dia a dia da população.

Quanto mais um governo gasta para pagar dívidas, menos sobra para investimentos públicos essenciais. Estradas se deterioram, escolas ficam defasadas, hospitais se sobrecarregam e o crescimento a longo prazo sofre.

Esse aperto fiscal costumava levar a um aumento na carga tributária, redução de serviços públicos e estagnação nos salários. Em muitos países, as projeções do FMI, que mostram custos de juros consumindo até 60% das receitas, ilustram a pressão intensa sobre os governantes para decidir entre honrar dívidas do passado ou investir no futuro.

Nações de baixa renda estão entre as mais vulneráveis, com mais da metade já em situação de estresse financeiro ou sob risco elevado. Para elas, a alta dos juros pode significar um corte em serviços essenciais, uma situação que pode reverter anos de progresso, aumentar as desigualdades e desestabilizar a região. A dívida pode ser uma questão econômica, mas suas consequências são sociais e políticas.

Para Quem o Mundo De fato Deve Dinheiro

Há uma ideia errada de que os governos devem mais para potências estrangeiras. Na verdade, a maior parte da dívida, principalmente em economias avançadas, é interna, ou seja, deve a instituições locais, como fundos de pensão e bancos.

Para economias grandes e estáveis, os principais credores são instituições internas. Nos Estados Unidos, uma parte significativa dos títulos do Tesouro é mantida por cidadãos americanos, fundos de aposentadoria e agências federais. Assim, a dívida do governo pode ser vista como uma promessa feita pela população a si mesma.

Nas economias em desenvolvimento, a situação é bem diferente. Muitos países emergentes dependem de credores externos, como instituições multilaterais e países como a China, que são credores dominantes na África e na Ásia. As obrigações desses países geralmente estão denominadas em moeda estrangeira, o que aumenta o risco cambial.

Para esses países, o risco cambial e o sentimento dos investidores podem fazer toda a diferença entre estabilidade e crise.

Conclusão

Não é a existência da dívida que representa perigo, mas a rapidez com que ela aumentou e as previsões para o futuro. O mundo está entrando em uma era de dívida crescente que não pode ser ignorada ou resolvida apenas com austeridade.

Instituições como o FMI e a ONU concordam que os países precisam investir em setores que promovam crescimento, como tecnologia, mão de obra qualificada e infraestrutura robusta, reformando também seus sistemas tributários e melhorando a eficiência dos gastos.

O próximo decênio mostrará se os governos conseguirão controlar seus endividamentos ou se aceitarão a dívida como um custo permanente para manter as economias em movimento.

Atualmente, o mundo está afundando em dívidas, e os juros também estão subindo. Mesmo que a água esteja subindo lentamente, ela continua a subir. Sem ações urgentes e disciplinadas, o peso cairá sobre a população atual e as gerações futuras.

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