Nos primeiros dias de vida, um importante processo acontece no intestino do recém-nascido. Nesse período, que geralmente dura de três a quatro dias, o intestino, que ainda é praticamente estéril, começa a ser colonizado por trilhões de microrganismos. Esse conjunto de microrganismos é conhecido como microbioma intestinal. A compreensão de como esse microbioma se forma se tornou um tema significativo na pesquisa sobre saúde infantil.
### Importância dos Primeiros Dias
Uma pesquisa conduzida entre 2016 e 2017 analisou as fezes de milhares de recém-nascidos no Reino Unido para investigar a formação do microbioma. Os cientistas identificaram que, em poucos dias após o nascimento, já se estabelecia um padrão de bactérias no intestino do bebê. Esse período inicial é crucial para o desenvolvimento do sistema imunológico. Antes do nascimento, o bebê tem pouco ou nenhum contato com microrganismos. Após o parto, precisa aprender rapidamente a distinguir entre bactérias inofensivas e aquelas que podem causar doenças.
Essas primeiras bactérias atuam como “treinadores” do sistema imunológico, ajudando o corpo a tolerar alimentos e a se defender contra infecções.
### O Impacto do Tipo de Parto
Um aspecto relevante das pesquisas diz respeito ao tipo de parto – vaginal ou cesárea. No parto natural, o recém-nascido tem contato direto com as bactérias do intestino da mãe, que contribuem para a colonização do seu sistema digestivo. Em contraste, bebês nascidos por cesariana têm menor contato com essas bactérias, e estudos mostram que tendem a apresentar uma flora intestinal diferente, em grande parte associada a germes do ambiente hospitalar.
Os primeiros sete dias após o nascimento revelam uma bactéria dominante: nos partos normais, prevalecem as benéficas do gênero Bifidobacterium, enquanto nas cesarianas, podem predominar bactérias oportunistas, que não oferecem os mesmos benefícios. Embora a cesariana seja uma intervenção indispensável em muitos casos, essa diferença ajuda a explicar o aumento do risco de alergias, asma e infecções respiratórias em bebês nascidos dessa forma.
### O Papel das Bactérias na Saúde
Uma bactéria destacada pela sua importância é a Bifidobacterium longum. Bebês com essa bactéria predominante em seus intestinos parecem ter menos hospitalizações por infecções respiratórias nos primeiros dois anos de vida. O leite materno desempenha um papel fundamental, pois contém açúcares complexos que as bactérias transformam em compostos que ajudam a regular o sistema imunológico. Além disso, essas bactérias alteram o ambiente do intestino, dificultando a proliferação de microrganismos nocivos.
### Melhorando o Microbioma
As descobertas sobre o microbioma geram questionamentos sobre como apoiar os bebês – especialmente os nascidos por cesárea – na formação de um microbioma saudável. Algumas práticas, como a “semeadura vaginal”, ganharam destaque, mas especialistas alertam para os riscos, pois essa técnica pode transferir patógenos nocivos e não garantir os benefícios esperados.
Outra alternativa, o transplante de fezes maternas, está em fase experimental e não é amplamente recomendado. Atualmente, o uso de probióticos é visto como uma abordagem mais segura, especialmente para bebês prematuros ou de baixo peso. Contudo, é importante lembrar que cada bebê possui um microbioma único e o futuro pode estar em intervenções personalizadas que considerem o perfil genético, imunológico e alimentar da criança.
A análise do primeiro cocô do bebê vai além da curiosidade; ele é um indicador de como as interações iniciais da vida podem ter impactos duradouros. Pesquisadores continuam a investigar essa questão, que se revela cada vez mais complexa e fundamental para a saúde infantil.