O Mercado de IPOs na Índia: Um Novo Capítulo em 2025
Nos últimos anos, a economia de startups na Índia enfrentou um paradoxo. Apesar de conseguir criar várias unicorns — startups avaliadas em mais de um bilhão de dólares — a transição para o mercado público sempre foi complicada. As ofertas públicas iniciais (IPOs) traziam muitas instabilidades, com as avaliações dos negócios oscilando bastante. Empresas que antes eram vistas como símbolos da ambição indiana tiveram dificuldade em manter a confiança após se tornarem públicas. Em 2021, esse clima instável deixou uma marca negativa, fazendo parecer que o crescimento das startups havia encontrado seu limite.
No entanto, em 2025, tudo mudou. Um grupo de novas empresas abriram capital e a recepção foi bem diferente, mostrando um amadurecimento desses negócios. Empresas como Groww, Lenskart, PhysicsWallah, Urban Company e Ather trouxeram mais de 32 bilhões de dólares ao mercado público. Essas listagens não só geraram novos bilionários, como também trouxeram uma liquidez esperada aos fundos de investimento, mostrando que a tecnologia indiana poderia se manter relevante a preços competitivos até mesmo no mercado público. Pela primeira vez em anos, o sistema parecia funcionar de forma coordenada.
Entretanto, esse renascimento também revelou um problema mais profundo: mesmo com um governo mais forte, caminhos mais claros para a lucratividade e um crescimento mais disciplinado, a Índia ainda não tem uma empresa de tecnologia com apoio de investimento que possa atingir um valor de mercado de 100 bilhões de dólares. Isso é diferente do que ocorre em mercados como os EUA e a China, que já contam com gigantes nesse patamar.
Vemos, portanto, que falta uma empresa de tecnologia de nova geração que possa crescer de forma rápida e consistente como as que vemos nos Estados Unidos e na China. Essa lacuna é crucial e ainda precisa ser enfrentada.
O Funcionamento do Mercado de IPOs em 2025
A transformação fica mais evidente ao analisarmos os números. A Groww, quando listou suas ações, tinha uma avaliação de 8,6 bilhões de dólares e chegou a passar dos 12 bilhões em apenas uma semana. O retorno dos investimentos feitos pela Peak XV, em Groww, foi acima de 50 vezes.
Já a Lenskart, que tinha uma avaliação de cerca de 5 bilhões de dólares, listou suas ações com a esperança de atingir 7,5 bilhões e acabou com uma demanda 28 vezes maior que o esperado. Hoje, suas ações estão avaliadas em mais de 8 bilhões. A PhysicsWallah, uma startup de educação fundada em 2020, já começou com um aumento de 33% em seu valor, atingindo 5 bilhões logo em seu primeiro dia na bolsa. A Urban Company registrou o IPO mais subscrito do ano, listando suas ações quase 60% acima do preço inicial e superando os 2,7 bilhões de dólares.
A Ather Energy também demonstrou que startups com investimentos pesados poderiam conquistar a confiança do mercado. Com uma listagem em torno de 1,4 bilhões de dólares, essa empresa conseguiu entregar retornos próximos de 40 vezes. Nenhum ciclo anterior de IPOs na Índia havia mostrado consistência como esse.
Essas listagens não foram pressas para entrar no mercado; elas se mantiveram firmes e, em alguns casos, até se valorizaram após a listagem. Os investidores de ações, que eram cautelosos com empresas de tecnologia em estágio final, agora estão recompensando aquelas que mostram clareza operacional e crescimento previsível.
Por Que 2025 Funcionou Onde 2021 Não Deu Certo
O contraste com 2021 é bem nítido. Aquele ciclo foi muito impulsionado pela emoção do mercado. Muitas das empresas que foram listadas na época tinham avaliações esticadas e caminhos incertos para a lucratividade. Quando a Paytm sofreu uma queda, a confiança dos investidores foi abalada e diversos fundadores decidiram adiar seus planos de IPO.
O cenário de 2025 foi diferente. A Groww já se mostrava lucrativa. A Lenskart conseguiu manter suas margens com uma receita previsível. A PhysicsWallah se apresentou com uma estrutura de custos limpa e poucos competidores no mercado. A Urban Company se destacou na categoria com menos pressão competitiva. A Ather, por sua vez, mostrou maior disciplina financeira em um setor que anteriormente afastava investidores por conta de altos gastos.
Essas empresas foram além do discurso. Os investidores puderam ver números concretos, contratos e consistência. O resultado foi uma onda de IPOs baseada em fundamentos reais, e não em promessas vazias. O mercado público respondeu a esse novo cenário.
A Lacuna Estrutural que a Índia Deve Enfrentar
Apesar de todos os avanços, a Índia ainda falta um ponto que define ecossistemas de startups mais avançados: a ausência de uma empresa que possa crescer para 100 bilhões de dólares. Essa falta se torna mais clara quando comparamos com empresas globais. Nos EUA, por exemplo, a OpenAI já ultrapassou os 500 bilhões de dólares em avaliação. Empresas como SpaceX estão perto de atingir 400 bilhões, enquanto a Databricks chegou a 100 bilhões.
As empresas mais robustas da Índia estão bem abaixo desse patamar. O Flipkart está avaliado em cerca de 35 bilhões, o PhonePe e o Swiggy estão entre 12 e 15 bilhões. O Razorpay está em torno de 7 bilhões. Embora sejam empresas relevantes, elas não possuem inovação em áreas como IA, robótica ou sistemas de energia. Elas se destacam em setores moldados pela demanda e pela excelência operacional, não por grandes inovações tecnológicas.
Isso não é uma questão de capacidade; é uma questão do que o ecossistema escolheu desenvolver e financiar. O cenário de venture capital na Índia tem se concentrado em plataformas de consumo, pagamentos, logística e serviços. As empresas que alcançaram 100 bilhões em outros lugares geralmente vêm de áreas que exigem um capital mais profundo, investimento a longo prazo e uma ambição científica significativa.
É possível que a Índia produza empresas valiosas, mas ainda não produziu uma gigante tecnológica global.
O Que Essa Onda de IPOs Significa para a Próxima Década
É natural pensar que o sucesso das listagens de 2025 marca o fim de um processo de recuperação. No entanto, essa onda representa o início de uma redefinição estrutural. A Índia criou um motor de saídas que funciona bem. Os fundadores aprenderam a escalar suas empresas de maneira sustentável. O mercado público agora tem uma compreensão melhor de como precificar empresas de tecnologia. E os reguladores modernizaram o processo de pré-listagem, o que diminuiu as incertezas. A participação de investidores individuais também atingiu um nível mais maduro.
Mas o próximo passo precisa de um olhar diferenciado. A Índia deve fortalecer suas instituições de pesquisa, aumentar a disponibilidade de capital interno e apoiar empreendimentos mais baseados na ciência. As futuras potências globais provavelmente virão de áreas como infraestrutura de IA, computação avançada, robótica e biotecnologia. Essas são áreas onde a Índia tem talento, mas ainda precisa desenvolver um suporte de capital mais profundo.
A classe de IPOs de 2025 mostrou que a Índia sabe como criar saídas bem-sucedidas. O que ainda não aconteceu é que o país consiga escalar essas empresas para se tornarem potências globais. Enquanto isso não acontecer, a história da Índia continuará sendo uma mistura de avanços concretos e uma pergunta ainda sem resposta.