05/02/2026
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Pesquisadores vão testar terapia gênica para doenças raras com novo protocolo da FDA

No começo deste ano, pesquisadores do Hospital Infantil da Filadélfia e da Universidade da Pensilvânia desenvolveram um medicamento inédito para tratar KJ, um bebê que sofria de uma doença rara no fígado. O objetivo era salvar sua vida.

Os médicos de KJ utilizaram o CRISPR, uma ferramenta científica que funciona como um comando “localizar e substituir”, para corrigir um erro genético que impedia seu corpo de produzir uma enzima necessária para quebrar proteínas. Com isso, eles conseguiram criar um remédio com partes do código genético para corrigir esse erro, melhorando muito suas chances de sobrevivência.

Esse remédio não será usado para outros pacientes, mas a pesquisa pode servir como base para desenvolver tratamentos personalizados para outras doenças raras. Assim, esses tratamentos poderiam ser adaptados para cada caso, direcionando o foco para diferentes erros genéticos.

Recentemente, a FDA (Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos) anunciou uma nova maneira de conduzir ensaios clínicos para testar medicamentos únicos, como o desenvolvido para KJ. Essa nova abordagem permite que tratamentos para doenças raras possam obter aprovação regulatória e cobertura por seguros em casos onde antes isso era praticamente impossível.

Esse novo protocolo da FDA busca solucionar um desafio que existe na pesquisa de terapias para doenças raras. Normalmente, é difícil encontrar um número suficiente de pacientes para formar grupos de testes. Assim, as empresas farmacêuticas acabam sendo mais cautelosas em investir muito dinheiro e tempo em medicamentos que beneficiariam poucas pessoas.

A nova regra da FDA, chamada de “mecanismo plausível”, permitirá que pesquisadores da Filadélfia testem suas terapias genéticas personalizadas para distúrbios do ciclo da ureia, que envolvem um total de sete genes. Embora a técnica seja a mesma, cada paciente receberá uma injeção adaptada para o seu tipo específico de mutação genética.

Liderados pelo cardiologista Kiran Musunuru e pela especialista em doenças metabólicas Rebecca Ahrens-Nicklas, a equipe de Filadélfia espera que esse modelo sirva como exemplo para o desenvolvimento de medicamentos para doenças raras. Eles acreditam que, ao fazer isso, poderão mostrar aos laboratórios que criar tratamentos para essas condições é viável em uma escala mais ampla.

Embora cada doença rara tenha suas características específicas, milhões de pessoas vivem com alguma forma de condição rara, e muitos têm pontos em comum que poderiam ser tratados com um medicamento personalizado.

Usando CRISPR para tratar doenças raras

O tratamento de KJ é uma nova aplicação do CRISPR. Essa ferramenta, que serve para editar genes, tem uma origem curiosa ligada a testes de controle de qualidade de bactérias usadas na fabricação de iogurte.

Os cientistas descobriram que as bactérias conseguem armazenar informações do DNA de vírus que as atacam. Esses registros podem ser usados para encontrar erros em mutações genéticas dos pacientes. Um tipo de enzima é utilizado para “cortar” o erro e corrigi-lo ou eliminá-lo.

Neste ano, os médicos de KJ informaram que conseguiram desenvolver um remédio personalizado usando informações precisas sobre a mutação genética do bebê. Eles se uniram a parceiros de pesquisa e fabricação para produzir rapidamente o remédio e realizá-lo com segurança. O FDA deu essa autorização rápida, pensando em ajudar pacientes com doenças raras.

Esse processo foi fundamental para KJ, que ficou 307 dias internado e finalmente teve alta em junho. Porém, o mesmo remédio não poderia ser usado para outro paciente. Fazer medicamentos sob medida para cada caso não é viável em larga escala.

Aperfeiçoando o tratamento de KJ

Para alcançar mais pacientes com a terapia de edição genética, Musunuru e Ahrens-Nicklas precisavam encontrar uma forma de gerar um medicamento em maior quantidade. Além disso, era essencial conseguir a aprovação do FDA, pois, sem isso, muitas seguradoras não cobrem os tratamentos.

Normalmente, empresas farmacêuticas investem grandes quantias de dinheiro e demandam até uma década para desenvolver um remédio para uma doença específica. Contudo, Musunuru e Ahrens-Nicklas colaboraram com a FDA para criar um protocolo de teste que permitisse avaliar uma plataforma terapêutica que poderia ser personalizada para diferentes pacientes.

“Ter um número maior de pacientes facilita saber se um remédio funciona,” afirmou Musunuru. “Se tentássemos desenvolver um ensaio para cada um dos sete genes, seria financeiramente inviável.”

Os pesquisadores pretendem manter os elementos-chave do tratamento: o CRISPR vai identificar o erro genético, e cada paciente receberá um remédio com partes do DNA que visam corrigir a mutação. O gene específico que será alvo depende da condição de saúde de cada paciente.

Os testes serão realizados com pacientes que apresentem distúrbios da ureia, que afetam a capacidade do corpo de processar proteínas e eliminar amônia, pois essas condições têm biomarcadores visíveis. Esses biomarcadores ajudam a identificar o problema e a verificar se a terapia de edição genética está funcionando.

Por exemplo, KJ tinha uma mutação que o impediu de produzir uma enzima necessária para processar proteínas. Os médicos puderam facilmente testar se seu corpo estava faltando essa enzima e se seus órgãos estavam recebendo a proteína necessária. Após o tratamento feito sob medida, foi possível notar que havia um aumento na contagem de enzimas e uma melhor digestão das proteínas.

Um novo caminho na FDA para o tratamento de doenças raras

Em um artigo publicado em uma revista médica, representantes da FDA mencionaram KJ como um exemplo claro do impacto positivo que essa nova abordagem pode ter. O tratamento do bebê foi autorizado rapidamente em um processo que normalmente é voltado para pacientes com doenças ultrarraras que estão gravemente enfermos.

Os representantes observaram que as normas atuais podem ser muito complexas e, muitas vezes, dificultam inovações. A situação de KJ “destaca o potencial” para desenvolver terapias personalizadas que podem ser adaptadas a outras doenças raras semelhantes.

Com quase 30 anos após o sequenciamento do genoma humano, as terapias sob medida estão se tornando uma realidade mais próxima para quem precisa. Esse avanço é um marco que pode abrir novas portas para o tratamento de diversas doenças raras no futuro.

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