09/02/2026
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Projeto ensina saúde a adolescentes na zona sul de SP

Quando Arthur Xavier, de 15 anos, come alimentos ultraprocessados, como bolachas e salgadinhos, sente uma certa culpa. Não consegue evitar a tentação desses produtos, que atraem muitas crianças e adolescentes. Arthur entende a importância de se alimentar bem e considera que isso significa consumir alimentos naturais. Ele também está ciente de questões como infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), sexualidade saudável e alcoolismo, temas que seus amigos muitas vezes acham chatos, mas que são relevantes para ele e outros 40 adolescentes da região do Campo Limpo, na zona sul de São Paulo.

Arthur faz parte do projeto “Chega Junto”, que reúne meninos e meninas de 9 a 19 anos. O grupo se encontra semanalmente para discutir saúde de uma forma que se conecte à linguagem e ao cotidiano dos jovens. Essa iniciativa, desenvolvida pelo Hospital Israelita Albert Einstein, já mostrou resultados significativos: em Paraisópolis, houve um aumento de 36% no acesso dos jovens a unidades básicas de saúde (UBS) e um crescimento de 10% na vacinação contra o HPV, um ano após o início do projeto.

Essas crianças e adolescentes, muitas vezes provenientes de famílias de baixa renda, têm pouca familiaridade com a saúde. Para Arthur, ser saudável é uma prioridade, enquanto Henrique Augusto Cuenga, de 13 anos, define saúde como “não estar doente”. O projeto visa conscientizar esses jovens sobre diversos temas, especialmente em áreas vulneráveis onde os índices de gravidez na adolescência são altos, contrariando a tendência nacional de queda nessas taxas desde os anos 2000.

Profissionais de saúde que atuam na UBS de Paraisópolis reportam um número crescente de gestantes com sífilis, que frequentemente resulta de relações sexuais precoces e desprotegidas. As oficinas do projeto “Chega Junto” ajudam os adolescentes a lidarem com esses desafios na área da saúde.

A iniciativa surgiu a partir da observação de que os adolescentes tinham pouca presença nas unidades de saúde, as quais são voltadas para a prevenção e tratamento de doenças leves. Essa falta de acesso se deve a diversos fatores, como a falta de orientação familiar e a carga horária de trabalho dos pais, que nem sempre conseguem acompanhá-los. Além disso, a comunicação entre os profissionais de saúde e os jovens muitas vezes não é adequada ao seu contexto.

Para mudar esse cenário, equipes de três UBS receberam treinamento para se aproximar dos adolescentes, utilizando a gamificação, uma estratégia de ensino que incorpora jogos. Os jovens participaram da criação de jogos de tabuleiro, desenvolvendo personagens e tramas com temas relevantes escolhidos em conjunto com os profissionais de saúde.

Um dos jogos, chamado “Caverna do Dogão”, aborda a alimentação, onde um cachorro-quente representa os alimentos ultraprocessados. Os jogadores devem evitar o Dogão e outros itens, como cerveja e vapes, utilizando ferramentas como escudos e espadas. Outro jogo, “Dejavú”, foca na redução de danos, onde os participantes aprendem a usar recursos como preservativos e seringas descartáveis, visando enfrentar situações de risco à saúde.

Essas dinâmicas permitem que os adolescentes discutam questões importantes de forma lúdica. Segundo André Domicciano, designer de jogos que auxilia na criação do projeto, essa abordagem torna o aprendizado mais envolvente e menos formal.

Os resultados obtidos até agora mostram que o projeto também contribuiu para um aumento de aproximadamente 5% nos atendimentos odontológicos em Paraisópolis. Embora não haja dados da segunda fase do “Chega Junto” no Campo Limpo, há indícios de que os atendimentos de enfermagem nas 14 UBS da região também cresceram.

A interação dos jovens com profissionais de saúde ajudou a estabelecer uma relação de confiança, o que é essencial para a comunicação com adolescentes. Danielle Palacio, gerente de rede de Atenção à Saúde da instituição, destaca que os participantes agora entendem que podem ir às UBS para receber atendimento básico sem a necessidade de acompanhamento dos pais.

Os resultados positivos do projeto garantiram reconhecimento internacional. O “Chega Junto” foi apresentado na 18ª Conferência Europeia de Saúde Pública, realizada na Finlândia, e chamou a atenção de instituições de países como Portugal, Romênia, França e Reino Unido. Segundo Francisco Timbó, consultor do Hospital Einstein, o sistema de saúde público brasileiro é observado com grande interesse por ser uma referência em saúde pública. O projeto também resultou em uma publicação no European Journal of Public Health, vinculado à Universidade de Oxford.

Essa iniciativa de saúde pública conta com o apoio da Umane, uma associação civil voltada para promover ações em prol da saúde.

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