07/02/2026
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Reformulação dos sistemas de saúde na Amazônia e as mudanças climáticas

Médicos e especialistas pedem mudanças nos sistemas de saúde da Amazônia devido às alterações climáticas

Um grupo de pesquisadores brasileiros defende a necessidade de repensar os sistemas de saúde na Amazônia diante das mudanças climáticas, eventos extremos e insegurança alimentar. Em um artigo recentemente publicado em uma renomada revista médica, eles proponhem que os saberes locais sejam considerados no redesenho do sistema de saúde da região.

A discussão ganha relevância especialmente com a realização da COP30 na Amazônia e a criação de um plano nacional de saúde e clima pelo Ministério da Saúde. Os autores do artigo sugerem que o Sistema Único de Saúde (SUS) na Amazônia deve incluir indicadores específicos que reflitam as peculiaridades da área e valorizar práticas de cuidado adaptadas ao território.

Gabriela Di Giulio, professora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, e uma das autoras do estudo, destacam que a saúde sempre teve um papel secundário nas discussões sobre mudanças climáticas. Segundo ela, eventos extremos, como ondas de calor, enchentes e tornados, têm se tornado mais frequentes e afetam cada vez mais a população.

Os pesquisadores afirmam que para criar um sistema de saúde mais eficaz, é fundamental integrar saberes tradicionais, científicos e políticos. Entre as propostas está a implementação de uma vigilância em saúde que considere as perspectivas das comunidades locais, especialmente as de origem indígena. Eles ressaltam a importância de valorizar os conhecimentos sobre alimentação e práticas dietéticas, especialmente para conter a disseminação de alimentos ultraprocessados.

Um exemplo positivo mencionado no artigo são as parteiras, que combinam práticas biomédicas e ancestrais para atender comunidades em áreas remotas. Os pesquisadores sugerem um modelo de adaptação que reconhece a importância dos rios e da floresta, e que considera os povos tradicionais como detentores de conhecimentos essenciais para enfrentar as mudanças climáticas.

Os autores utilizam o conceito de “territórios fluidos”, que se refere à dinâmica das comunidades na Amazônia. Leandro Giatti, professor da mesma universidade e coautor do artigo, explica que em períodos de seca, muitas comunidades ficam isoladas e sem acesso a serviços de saúde. Isso resulta em uma piora nas condições de vida e no aumento de doenças. Portanto, é imprescindível adaptar o sistema de saúde a essa realidade.

Di Giulio também alerta que, caso o modelo de desenvolvimento atual continue e os acordos climáticos não sejam cumpridos, a sociobiodiversidade da região pode ser seriamente ameaçada, aumentando os problemas sociais e ambientais.

O artigo destaca a visão holística dos povos indígenas sobre saúde, que abrange aspectos espirituais, sociais e ambientais. Doenças como a malária e mesmo a COVID-19 são vistas não apenas como questões médicas, mas como resultados de desequilíbrios causados por ações humanas que desconsideram a natureza e os espaços considerados sagrados.

Historicamente, a Amazônia foi tratada como um território a ser explorado, o que trouxe consequências negativas. Políticas públicas que ignoraram os direitos e a presença dos povos tradicionais resultaram em perda de biodiversidade e impactos sérios na saúde mental e física dessas comunidades.

Além do artigo principal, os pesquisadores também publicaram três outras análises sobre mudanças climáticas e saúde, formando um dossiê completo sobre o tema. Um dos artigos aborda a atuação de lideranças mulheres indígenas durante a pandemia e como essa experiência pode oferecer lições para lidar com emergências climáticas. Outro texto discute novas formas de governança socioambiental na Amazônia, enquanto um terceiro analisa os desafios do país em sediar eventos internacionais, ao mesmo tempo em que enfrenta contradições internas, como a exploração de recursos naturais.

O grupo de pesquisa é composto por especialistas de diferentes instituições, incluindo a Universidade de Brasília, a Universidade Federal do Amazonas e a Fiocruz-Amazônica.

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