Em 2022, uma tragédia marcou a vida de uma família ao ocorrer um acidente de helicóptero que resultou na morte de João Augusto Hjertquist Tremeschin, conhecido como Guto. Ele tinha 37 anos e era piloto quando a aeronave se chocou com a serra da Cantareira, em São Paulo, apenas cinco minutos após a decolagem.
A investigação revelou que o comandante da aeronave enfrentava problemas de saúde mental, incluindo depressão, e que em seu organismo foram encontrados vestígios de drogas como cocaína, clonazepam, venlafaxina e zolpidem. Isso despertou preocupações sobre a segurança na aviação, especialmente em relação à contratação de pilotos que não estavam em condições adequadas para operar uma aeronave.
Apesar da gravidade do ocorrido, nenhuma punição foi aplicada. O Ministério Público arquivou o caso, alegando que não era possível responsabilizar a empresa que escalou o piloto doente. Essa decisão foi surpreendente, principalmente em um setor onde há uma clara compreensão de que acidentes aéreos não acontecem por um único motivo, e onde existem protocolos rígidos sobre as funções dos profissionais.
A depressão de Guto era conhecida pela empresa, mas sem a realização de uma investigação apropriada, não se pôde determinar se ele havia recebido autorização médica para retornar ao trabalho. Além disso, prevaleceu a ideia de que, por se tratar de uma aeronave privada, não se aplicavam as normas do RBAC 120, que visa prevenir o uso de drogas entre pilotos de companhias aéreas e táxis aéreos. Isso significa que a empresa não se sentiu responsável por fiscalizar o estado de saúde de seu piloto.
Adicionalmente, a investigação não chegou a conclusões sobre o uso irregular da aeronave, que operava sem permissão para ser utilizada como táxi aéreo. Guto estava no helicóptero devido a um contrato de prestação de serviços. A proprietária da aeronave afirmou que a cedeu gratuitamente, e essa questão não teve mais desdobramentos legais.
Após anos de espera, o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) reconheceu que os efeitos das drogas no piloto poderiam ter prejudicado sua capacidade de operar o helicóptero. No entanto, o órgão, que deveria priorizar a prevenção, não fez recomendações sobre o controle do uso de substâncias na aviação.
A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) também não impõe a realização de exames toxicológicos para a emissão ou renovação do Certificado Médico Aeronáutico. Até hoje, nenhum certificado foi suspenso ou anulado devido ao uso de drogas. A Anac ainda não tem um registro claro de quantos pilotos passaram por esse tipo de exame. Ao analisar o tema em 2020, após outro acidente relacionado ao uso de substâncias, a agência considerou que a exigência de testes seria ineficaz, argumentando que o exame não detecta drogas após 32 horas. Essa justificativa polariza opiniões, já que o exame toxicológico para motoristas tem ampla capacidade de detecção por períodos mais longos.
Além disso, os desafios enfrentados por pilotos incluem um ambiente de trabalho marcado por estresse, longas jornadas e pressão por resultados, o que pode afetar a saúde mental desses profissionais. Estudos revelam que cerca de 12% dos pilotos sofrem de depressão, com esse número aumentando para 18% segundo uma pesquisa recente da Universidade de Oxford. Muitos optam por não se manifestar sobre esses problemas devido ao medo das repercussões em suas carreiras.
Embora a perda de Guto não possa ser revertida, seus parentes buscam promover uma discussão sobre saúde mental e a fiscalização do uso de substâncias na aviação, com o objetivo de evitar que outras famílias passem pela mesma dor. A esperança é de que, a partir desse trágico evento, novas diretrizes de segurança sejam implementadas para proteger todos os que utilizam esse meio de transporte.