09/02/2026
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Saúde mental e sua relação com renda e trabalho

Estratégias de Economia Solidária Ajudam na Saúde Mental

Nos últimos anos, surgiram iniciativas de economia solidária para atender as demandas da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), resultado da luta contra as internações prolongadas e melhorias nas condições de tratamento em saúde mental. Esses projetos buscam oferecer alternativas de trabalho e geração de renda para pessoas em situações de vulnerabilidade social.

Essas iniciativas surgem em um contexto de desigualdades no acesso aos serviços básicos. Programas de geração de renda podem ajudar a promover a autonomia e a qualidade de vida entre os usuários de serviços de saúde mental. A economia solidária, defendida pelo economista Paul Singer, é uma forma de resposta organizada à exclusão social provocada pelo mercado de trabalho tradicional.

As cooperativas sociais, que fazem parte desses projetos, são organizadas de maneira a proporcionar um ambiente democrático de trabalho, onde a ênfase não está no lucro, mas na dignidade e na valorização de cada trabalhador. O objetivo é promover a autonomia e oferecer uma alternativa de trabalho que seja inclusiva e respeitosa.

No campo da saúde mental, as cooperativas têm um histórico positivo, respaldado pela Lei nº 9.867/99, que reconhece sua importância para pessoas em desvantagem, como indivíduos com deficiências físicas e psíquicas ou que passaram por situações de vulnerabilidade. Essa abordagem pode ajudar a diminuir a dependência de serviços psiquiátricos tradicionais e benefícios sociais, oferecendo oportunidades de inserção no mercado de trabalho.

Historicamente, o trabalho já foi visto como uma forma de tratamento em saúde mental. Durante o período do que se chamou laborterapia, as pessoas consideradas “doentes mentais” eram forçadas a trabalhar em colônias, onde sua mão de obra era explorada sem remuneração. Modelos como a arteterapia também reduziam a expressão artística a um simples tratamento, desconsiderando o potencial transformador do trabalho individual.

Mudanças significativas começaram na metade do século passado, com experiências pioneiras como o Clube Terapêutico Paul Balvet, na França. Ali, os participantes eram incentivados a autogerir suas práticas artísticas e de trabalho, rompendo com a lógica de controle dos hospitais.

No Brasil, a trajetória para a economia solidária em saúde mental começou em 1946, com a fundadora Nise da Silveira, que destacou a importância da terapia ocupacional em ambientes de tratamento. A Reforma Psiquiátrica na década de 1970, guiada pelo princípio “nada sobre nós sem nós”, levou à criação de várias experiências bem-sucedidas que uniram saúde mental e geração de renda.

Iniciativas como Libersol, em Curitiba (PR), e Ciranda Sumaúma, em Rio Branco (AC), ilustram a nova abordagem do trabalho não apenas como terapia, mas como uma forma de cidadania e expressão de vida. Além disso, eventos festivais como os blocos de carnaval que reúnem pacientes psiquiátricos mostram a capacidade criativa desses indivíduos.

Essas experiências têm o potencial de transformar a autopercepção dos participantes, permitindo que se vejam não como doentes, mas como artistas e cidadãos. No entanto, os desafios permanecem, especialmente no que diz respeito à inserção no mercado formal, onde a competitividade e a falta de investimento dificultam o sucesso dessas iniciativas.

Ainda assim, o Brasil enfrenta altos índices de afastamentos do trabalho devido a questões de saúde mental. A realidade revela que a adaptação às exigências do mercado muitas vezes não é sinônimo de saúde mental. Assim, a reflexão sobre a relação com o trabalho se torna essencial. Pautas como a redução das cargas horárias de trabalho e melhores condições laborais precisam ser discutidas para se alcançar um ambiente mais saudável e inclusivo.

A luta por novas formas de trabalho e pela reconstrução de vínculos afetivos e de cidadania deve ser um esforço coletivo, que aborde não apenas a saúde mental, mas também as estruturas sociais em que estamos inseridos.

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