O mês de janeiro é dedicado à promoção da saúde mental, com a campanha Janeiro Branco destacando a importância do tema, especialmente no ambiente de trabalho. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 1 bilhão de pessoas no mundo enfrentam transtornos de saúde mental, como ansiedade e depressão. Esses problemas não só afetam a vida pessoal e profissional dos indivíduos, mas também se tornaram a segunda maior causa de incapacidade a longo prazo, gerando custos significativos para a sociedade.
Uma mudança importante ocorrerá nas regras de segurança no trabalho no Brasil. A partir de maio, a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) incluirá a saúde psicológica nas diretrizes de segurança do trabalhador. Essa adição integra a saúde mental ao Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), permitindo que o tema deixe de ser tratado de maneira pontual e passe a ser uma preocupação diária nas empresas. As organizações têm até 26 de maio para se adaptarem a essa nova regra. O não cumprimento pode resultar em multas e ações judiciais.
Segundo o Ministério da Previdência Social, em 2024 foram emitidas 472.328 licenças médicas relacionadas a problemas psicológicos, o que representa um aumento de 68% em relação ao ano anterior. Os transtornos mais frequentemente registrados incluem ansiedade, depressão, crises de pânico e a síndrome de burnout, que se caracteriza por exaustão física e mental provocada pelas condições de trabalho. No estado de Pernambuco, o termo “burnout” foi um dos mais buscados no Google em 2024, indicando uma crescente preocupação com essa condição.
A síndrome de burnout pode ser reconhecida como doença ocupacional, desde que haja comprovação de que o adoecimento esteja relacionado às condições de trabalho. A advogada Ana Gabriela Burlamaqui, especialista em Direito do Trabalho, afirma que a inclusão do burnout na lista de doenças ocupacionais pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) em janeiro de 2024 representa um avanço significativo para o tratamento da saúde mental no ambiente profissional.
A especialista também destaca que, embora a inclusão do burnout exija a perícia médica para comprovar a relação com o trabalho, torna o processo legal menos complexo, equiparando essa síndrome a acidentes de trabalho para efeitos legais. Os trabalhadores diagnosticados com burnout têm direitos tanto na esfera extrajudicial quanto judicial e devem buscar atendimento médico e a emissão de atestados para comprovar sua condição.
Em relação à cultura organizacional, embora a saúde mental tenha ganhado alguma atenção em iniciativas como o Setembro Amarelo e o Janeiro Branco, ainda há um longo caminho a percorrer. Para a neuropsicóloga Irene Brasileiro, locais de trabalho com alta pressão elevam os riscos para a saúde mental. Segundo ela, a cultura de uma empresa influencia as prioridades em relação à saúde mental. Quando metas excessivas e a competição são valorizadas, a saúde mental tende a ser ignorada.
Irene aponta que, de acordo com a OMS, empresas que integram a saúde mental nas suas estratégias e promovem um ambiente favorável, como pausas regulares, revisão realista de metas e participação dos trabalhadores, apresentam menos faltas e maior engajamento. Isso mostra a importância de abordar a saúde mental de maneira estratégica, e não apenas em datas simbólicas.
Algumas empresas já reconhecem a necessidade de cuidar da saúde mental de seus colaboradores. A diretora global de Pessoas e Responsabilidade Social da Gerdau, Flávia Nardon, afirma que a empresa investe em ações que impactam positivamente a vida de seus 30 mil colaboradores, reconhecendo que o bem-estar e a performance caminham juntos.
Na Gerdau, os colaboradores têm acesso a um programa de suporte gratuito que ajuda em questões psicológicas, financeiras, jurídicas e sociais, disponível 24 horas por dia. A empresa também promove um sistema para garantir que as necessidades básicas de saúde e bem-estar de seus colaboradores sejam atendidas.
Enquanto alguns ambientes estão avançando na valorização da saúde mental, a NR-1 é uma ferramenta fundamental para garantir a responsabilidade das empresas nesse aspecto. A norma, já prevista na legislação trabalhista, agora se expande para incluir a saúde mental. A expectativa é que, com essa atualização e o apoio de campanhas simbólicas, as condições no ambiente de trabalho melhorem, tornando-se mais saudáveis e produtivas.
Assim, datas como o Janeiro Branco podem estimular as empresas a olhar com mais cuidado para a saúde mental de seus colaboradores, refletindo uma maior sensibilidade e ação nessa área.