09/02/2026
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Transtornos mentais e deficiência intelectual: uma realidade comum

Um estudo recente da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) revelou que pessoas com deficiência intelectual têm uma incidência significativamente maior de transtornos mentais do que aquelas sem essa condição. A pesquisa é a primeira a analisar dados nacionais sobre saúde mental dessa população, utilizando informações da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019, realizada pelo IBGE.

Dentre os 272.499 participantes da PNS, 1,2% (ou 3.198 pessoas) se declararam como tendo deficiência intelectual. Desses, 43,2% relataram ter pelo menos um transtorno mental. Em contraste, apenas 13,7% da população sem deficiência apresentou esses relatos. O estudo aponta que, entre adultos com até 59 anos, o risco de apresentar depressão é três vezes maior para aqueles com deficiência intelectual e até 14 vezes maior para a combinação de depressão com outro transtorno mental.

Gabriela Arantes Wagner, autora do estudo e membro do programa de pós-graduação em Saúde Coletiva da Unifesp, destacou que a pesquisa partiu de documentação internacional que já apontava para a elevada ocorrência de transtornos mentais entre essa população. Ela mencionou fatores como a falta de capacitação de profissionais de saúde, estigma e problemas de acessibilidade que dificultam o cuidado adequado. Wagner expressou surpresa com a alta prevalência encontrada no Brasil.

A inclusão de perguntas específicas sobre deficiência na PNS foi essencial para o estudo. Wagner apontou diversas barreiras que as pessoas com deficiência enfrentam, como dificuldades de acesso a serviços de saúde, limitações financeiras, desigualdade racial e a dependência de cuidadores. Ela criticou a tendência de profissionais em considerar que o sofrimento mental de uma pessoa está direto relacionado à sua deficiência, o que pode levar a subdiagnósticos e tratamentos inadequados.

Wagner defendeu a necessidade de aumentar o financiamento e a abrangência da Rede de Atenção Psicossocial (Raps) e de ampliar serviços especializados que oferecem acolhimento adequado a essa população. Ela chamou a atenção para os dados do estudo, que mostram que uma pessoa com deficiência intelectual de 0 a 59 anos no Brasil tem quase 13 vezes mais chance de sofrer de depressão ou outro transtorno mental, destacando a urgência de uma resposta efetiva do sistema de saúde.

O estudo também contou com o apoio do Instituto Jô Clemente (IJC), que trabalha pela promoção da saúde e inclusão de pessoas com deficiência intelectual e outras condições. Gustavo Schiavo Matias, coordenador do Centro de Ensino, Pesquisa e Inovação do IJC, afirmou que os dados confirmam padrões observados na instituição, incluindo uma combinação de comorbidades clínicas e experiências de capacitismo que elevam o risco de problemas de saúde mental.

Matias ressaltou que a falta de diagnósticos precoces e a identificação tardia de problemas fazem com que o sofrimento se acumule e agrave a situação dessas pessoas. Ele esclareceu que a deficiência intelectual é uma condição do neurodesenvolvimento, e não um transtorno mental, mas que tanto as pessoas com deficiência quanto seus cuidadores têm necessidades específicas que frequentemente não são reconhecidas.

O estudo também abordou desigualdades socioeconômicas que afetam diariamente o acesso aos serviços de saúde. Matias mencionou desafios como longas distâncias, filas extensas, barreiras de comunicação e falta de informação, que aumentam a pressão sobre cuidadores e dificultam o acesso a serviços adequados.

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