Um estudo recente da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) revelou que pessoas com deficiência intelectual têm uma incidência significativamente maior de transtornos mentais do que aquelas sem essa condição. A pesquisa é a primeira a analisar dados nacionais sobre saúde mental dessa população, utilizando informações da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019, realizada pelo IBGE.
Dentre os 272.499 participantes da PNS, 1,2% (ou 3.198 pessoas) se declararam como tendo deficiência intelectual. Desses, 43,2% relataram ter pelo menos um transtorno mental. Em contraste, apenas 13,7% da população sem deficiência apresentou esses relatos. O estudo aponta que, entre adultos com até 59 anos, o risco de apresentar depressão é três vezes maior para aqueles com deficiência intelectual e até 14 vezes maior para a combinação de depressão com outro transtorno mental.
Gabriela Arantes Wagner, autora do estudo e membro do programa de pós-graduação em Saúde Coletiva da Unifesp, destacou que a pesquisa partiu de documentação internacional que já apontava para a elevada ocorrência de transtornos mentais entre essa população. Ela mencionou fatores como a falta de capacitação de profissionais de saúde, estigma e problemas de acessibilidade que dificultam o cuidado adequado. Wagner expressou surpresa com a alta prevalência encontrada no Brasil.
A inclusão de perguntas específicas sobre deficiência na PNS foi essencial para o estudo. Wagner apontou diversas barreiras que as pessoas com deficiência enfrentam, como dificuldades de acesso a serviços de saúde, limitações financeiras, desigualdade racial e a dependência de cuidadores. Ela criticou a tendência de profissionais em considerar que o sofrimento mental de uma pessoa está direto relacionado à sua deficiência, o que pode levar a subdiagnósticos e tratamentos inadequados.
Wagner defendeu a necessidade de aumentar o financiamento e a abrangência da Rede de Atenção Psicossocial (Raps) e de ampliar serviços especializados que oferecem acolhimento adequado a essa população. Ela chamou a atenção para os dados do estudo, que mostram que uma pessoa com deficiência intelectual de 0 a 59 anos no Brasil tem quase 13 vezes mais chance de sofrer de depressão ou outro transtorno mental, destacando a urgência de uma resposta efetiva do sistema de saúde.
O estudo também contou com o apoio do Instituto Jô Clemente (IJC), que trabalha pela promoção da saúde e inclusão de pessoas com deficiência intelectual e outras condições. Gustavo Schiavo Matias, coordenador do Centro de Ensino, Pesquisa e Inovação do IJC, afirmou que os dados confirmam padrões observados na instituição, incluindo uma combinação de comorbidades clínicas e experiências de capacitismo que elevam o risco de problemas de saúde mental.
Matias ressaltou que a falta de diagnósticos precoces e a identificação tardia de problemas fazem com que o sofrimento se acumule e agrave a situação dessas pessoas. Ele esclareceu que a deficiência intelectual é uma condição do neurodesenvolvimento, e não um transtorno mental, mas que tanto as pessoas com deficiência quanto seus cuidadores têm necessidades específicas que frequentemente não são reconhecidas.
O estudo também abordou desigualdades socioeconômicas que afetam diariamente o acesso aos serviços de saúde. Matias mencionou desafios como longas distâncias, filas extensas, barreiras de comunicação e falta de informação, que aumentam a pressão sobre cuidadores e dificultam o acesso a serviços adequados.