A história do quadrinho “The Killer” gira em torno de um assassino que reflete sobre a natureza humana, insinuando que todos, de certa forma, são assassinos em suas vidas cotidianas. No início da série, ele afirma que qualquer vida requer uma forma de violência permanente para se estabelecer no mundo. O quadrinho, escrito por Matz e ilustrado por Luc Jacamon, se destaca por sua narrativa ampla, com o protagonista se movendo entre países como França, Nova Iorque e Venezuela, enquanto interage com assassinos, senhores do tráfico, policiais e personagens peculiares.
Neste ano, a obra ganhou uma adaptação cinematográfica realizada por David Fincher, intitulada “The Killer”. Embora o filme tenha elementos do quadrinho, como uma cena inicial de assassinato em Paris e uma trama de vingança, a versão de Fincher apresenta um enfoque diferente. O filme se afastou das reflexões filosóficas profundas do quadrinho, optando por um tom mais seco e até cômico.
O quadrinho reúne 750 páginas de conteúdo rico, proporcionando uma experiência densa que explora o psicológico do assassino, fazendo com que o leitor compreenda melhor suas motivações e dilemas internos. O protagonista, que é frequentemente chamado de ‘killer’, pode ser identificado como Christian. Ao longo da narrativa, ele tenta justificar suas ações, afirmando que essas são insignificantes comparadas aos horrores da história, como as atrocidades praticadas pelos conquistadores e o genocídio em Ruanda. Essa visão acaba transparecendo como uma negação da realidade.
Em um ponto da história, ele reflete sobre o ato de atirar, afirmando que o verdadeiro poder está em dar ordens. Apesar de seu comportamento aparentemente desapegado, suas ações o arrastam para tramas complexas, revelando que ele não é tão indiferente quanto tenta parecer. O assassino acaba se envolvendo em esquemas que têm impactos maiores do que ele imaginava, ligando-o a questões de petróleo e governo.
Apesar de sua intenção de permanecer distante do caos ao seu redor, o personagem se vê completamente imerso nele. O desenvolvimento do personagem gera dúvidas sobre sua evolução, pois seu monólogo interno ainda justifica seus atos até o final.
O filme de Fincher, adaptado por Andrew Kevin Walker, muda algumas nuances da obra original. O foco da voz interna do assassino agora gira mais em torno de seus hábitos cotidianos do que de eventos históricos. No início do filme, Fassbender interpreta o assassino de forma ligeiramente cômica, trazendo à tona características como a escolha de suas roupas e a contagem de calorias.
Apesar de a adaptação trazer um tom mais leve, o personagem acaba sendo retratado como menos inteligente, cometendo erros em uma missão simples. Em um momento, ele subestima a gravidade de suas ações e suas consequências, levando a uma série de desastres em seu plano.
Ao longo do filme, a perspectiva de que um assassino que se considera acima da lei na verdade é apenas uma peça em uma economia capitalista moderna é uma questão que Fincher parece explorar, embora tenha optado por um enfoque mais humorístico. Para os fãs do quadrinho que não gostarem das mudanças, a obra original ainda se mantém como uma profunda análise psicológica do protagonista.