Na última terça-feira, 25 de outubro, a Câmara Municipal de Campo Grande foi palco de uma polêmica gerada por declarações do vereador André Salineiro, do Partido Liberal (PL). Ele criticou um documento da Maternidade Cândido Mariano, intitulado “Protocolo Acolhimento a Transsexuais Grávidos”, chamando o material de “vergonhoso” e “bizarrice”.
O protocolo tem como objetivo orientar os profissionais de saúde sobre a atendimentos a pessoas trans durante a gestação. Ele inclui diretrizes fundamentais da Política Nacional de Humanização (PNH) para garantir um atendimento respeitoso, evitando estigmas e discriminação. O documento recomenda, por exemplo, que os profissionais respeitem o nome social da gestante e não presumam sua identidade de gênero.
Salineiro expressou estar “estarrecido” ao receber o material, mencionando especificamente uma imagem de um homem trans amamentando, a qual ele descreveu como uma “inversão de valores”. O vereador afirmou que é impossível um homem dar leite ao bebê, reforçando seu ponto de vista com a frase: “De peito de homem não sai leite”.
Em resposta às declarações do vereador, várias influenciadoras locais e ativistas se mobilizaram nas redes sociais. A influenciadora Maria Fernanda Cabral, conhecida como Mafê, reagiu ao vídeo de Salineiro, afirmando que homens trans podem engravidar e amamentar, e que merecem um atendimento digno e respeitoso. Ela compartilhou a experiência de Cleyton Bitencourt, um homem trans que é pai e amamentou seus dois filhos. Cleyton destacou que sua experiência de gestação e maternidade foi cercada de desafios, incluindo a falta de informações adequadas e o tratamento desrespeitoso que recebeu em instituições de saúde.
Cleyton descreveu sua vivência como um misto de felicidade e tristeza, devido à invalidação de sua identidade. Ele declarou: “Eu sou pai, eu gerei, eu pari, eu amamentei e negar isso não vai apagar a minha história.” Mafê, em seu vídeo, enfatizou a felicidade e os cuidados que os filhos de Cleyton recebem, contrastando essas realidades com os comentários extinguintes de Salineiro.
Outro posicionamento importante veio de Emy “Afro Queer” Santos, professora e ativista que denunciou a perseguição a pessoas trans. Ela afirmou que, em vez de abordar problemas reais da saúde pública, o vereador foca em discursos de ódio e desinformação. “Salineiro tenta esconder seu péssimo trabalho na política atacando a comunidade trans”, disse Emy, lembrando que homens trans têm garantidos, por lei, os mesmos direitos de atendimento ao Sistema Único de Saúde (SUS) que qualquer outro cidadão.
Emy também compartilhou sua própria história e desejo de aumentar sua família, reafirmando que opiniões como as de Salineiro não irão apagar seus objetivos de vida e felicidade. “Acredito no amor e na possibilidade de ser feliz além do que eles querem para nossa vida,” concluiu.
As falas de Salineiro e as reações de diversas pessoas destacam uma discussão mais ampla sobre direitos de pessoas trans e a necessidade de um atendimento de saúde inclusivo e respeitoso, essencial para garantir dignidade e igualdade a todos os cidadãos.