Veneza: As Ameaças à Cidade Flutuante
Veneza, conhecida como a “cidade flutuante”, enfrenta sérios desafios. No último século, a cidade afundou cerca de 25 centímetros, enquanto o nível do mar na região subiu quase 30 centímetros desde 1900. Essa combinação resulta em enchentes frequentes e no afundamento contínuo de uma das cidades mais visitadas do mundo, localizada em sua famosa lagoa.
Para os moradores, a localização insular de Veneza traz proteção, mas também apresenta dificuldades. As marés estão aumentando em frequência e altura devido à crise climática, e a cidade afunda cerca de dois milímetros a cada ano por processos naturais.
Um novo enfoque para lidar com essa situação está sendo proposto por Pietro Teatini, professor de hidrologia e engenharia hidráulica na Universidade de Pádua. Ele sugere que é possível elevar a cidade, usando um método inovador: bombear água para o subsolo profundo de Veneza. Essa técnica poderia elevar a cidade em até 30 centímetros, oferecendo um “fôlego” de cerca de 50 anos enquanto se busca uma solução mais definitiva.
Enchentes e Soluções no Passado
Historicamente, os governantes de Veneza tomaram diversas medidas para proteger a cidade. Durante séculos, redirecionaram rios e redesenharam a hidrografia da lagoa. Contudo, na década de 70, a extração de água subterrânea levou a um afundamento significativo, fazendo com que o centro histórico perdesse quase 13 centímetros de altura.
Atualmente, o principal sistema de proteção contra altas marés é o Mose, que consiste em barreiras móveis projetadas para se erguerem em caso de marés extremas. Contudo, essas barreiras já foram acionadas cerca de 100 vezes desde outubro de 2020, apesar de ainda estarem em fase de testes, e o sistema já consumiu aproximadamente 6 bilhões de euros.
A Proposta de Teatini
Teatini baseia sua proposta em técnicas utilizadas em reservatórios subterrâneos de gás natural. Ao explorar aquíferos a profundidades entre 600 e 1.000 metros, o objetivo é injetar água em vez de extrair. A ideia é criar poços ao redor de Veneza, dentro da lagoa, para elevar o solo de forma uniforme e prevenir riscos de instabilidade.
A proposta precisa de um projeto piloto inicial, que envolve a perfuração de um único poço para testar a viabilidade da injeção de água. O custo desse teste gira em torno de 30 a 40 milhões de euros, e, segundo Teatini, mesmo a implementação completa do plano custaria um terço do valor já gasto no sistema Mose.
O Futuro da Cidade
Embora a ideia de injetar água em um solo onde a história e a arquitetura são únicas pareça arriscada, Teatini enfatiza a segurança do projeto, diferindo de técnicas mais arriscadas como o fracking, que podem causar abalos sísmicos. Ele acredita que, se bem-sucedido, o método poderia oferecer uma solução temporária, abrindo espaço para um planejamento mais abrangente.
A luta para preservar Veneza é uma questão urgente. Teatini expressa frustração ao ver a cidade afundar e defende que é preciso agir rapidamente. Agora, após décadas de inatividade, ele acredita que as autoridades estão percebendo que soluções eficazes devem ser implantadas rapidamente.
Em 2025, foi criada a Autorità per la Laguna, uma entidade estatal responsável por planejar o futuro da lagoa. Teatini sugere que um financiamento coletivo poderia viabilizar a implementação inicial das soluções propostas. Enquanto o debate sobre a preservação da cidade continua, a luta de Veneza contra a natureza e a crise climática permanece uma história ainda em desenvolvimento.